Sabrina Noivas 58 - Meant To Marry

Os deuses do amor so implacveis!
Annette Carruthers havia feito de tudo para esquecer o passado. Mas isso s foi possvel ao conhecer Lucas Tremaine. Porm, apesar de desej-lo muito, ela temia que Lucas s estivesse atrs de uma boa histria. Lucas Tremaine, um escritor de sucesso, queria muito conhecer a verdade sobre o escndalo que vitimara Annette Carruthers, a mais famosa atleta da Nova Zelndia. S no esperava que, atrs de uma informao, encontrasse o amor.

Digitalizao e Correo: Nina


Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1997

Publio original: 1996

Gnero: Romance contemporneo

 Estado da Obra: Corrigida

Srie The Marriage Maker
Ordem	Ttulo	Ebooks	Data
1	The Mirror Bride
Sabrina Noites 56 -
 A Noiva Do Espelho	Feb-1997

2	Meant To Marry
Sabrina Noivas 58 -
 Retrato Encantado	Mar-1997

3	The Final Proposal
	Apr-1997


     















CAPITULO I
	Quem  ele?  Gergia Sanderson, "uma ruiva de olhos verdes, perguntou baixinho para a sua" acompanhante.
Annette Carruthers se voltou devagar e, por causa do sol intenso, s foi capaz de enxergar a silhueta do recm-chegado. Mesmo assim, sentiu uma forte e estranha apreenso dentro do peito. Acostumada a ser sempre a pessoa mais alta de um grupo, pde notar que o desconhecido era mais alto que ela. Instantes mais tarde, Annette conseguia enxerg-lo melhor. O rosto bonito e bem-feito, revelava uma autoridade e um controle invejveis. Apesar da altura, o homem estava em plena forma fsica: ombros largos, quadris estreitos, braos e coxas muito bem estruturados. E, apesar da altura, no era uma pessoa pesada. Caminhava com leveza e elegncia.
Ao voltar-se para o grupo de turistas, Annette continuava com aquela estranha apreenso no do peito.
"Mas foi Gergia quem o viu primeiro."
Jan, irm de Annette, e Gergia frequentavam o mesmo crculo de amizade em Auckland. E Jan vivia dizendo que a ruiva estava sempre disposta a encarar uma relao com um homem bonito. Jan e Gergia no gostavam uma da outra.
A ruiva, naquele momento, continuava a olhar para o recm-chegado.
Mas no era s Gergia quem estava profundamente impressionada e atrada pelo belo desconhecido. Todas as mulheres que se encontravam a bordo olhavam para ele.
"Pelo jeito esse homem atrai a todas mesmo. Tambm, no  para menos. H muito tempo no via um homem to viril, to senhor do seu prprio corpo e to atraente. Esse homem  uma grande tentao!", Annette concluiu em pensamento e viu que precisava assumir de novo uma postura profissional. Num tom alto de voz, por causa do barulho das ondas que quebravam contra o casco da embarcao, disse com muita simpatia:
	Antes de partirmos, quero que, por favor, vejam se todas a partes do corpo de vocs que se encontram expostas esto cobertas por protetor solar. No se esqueam das orelhas, dos tornozelos, dos ps e das mos.
	J estou usando protetor  Gergia disse com certa arrogncia e voltou a olhar para o desconhecido.
	Mas acho que voc no est usando uma quantidade suficiente  Annette comentou.  O sol aqui nessa ilha   muito mais forte -do que o da Nova Zelndia. E, portanto,  um grande perigo.
	Voc acha mesmo necessrio?
	Acho. Acho, sim. O sol daqui  implacvel.  Olhando para o grupo de turistas, continuou:  E daqui a duas horas, como uma professora exigente, vou ter que voltar a pedir a mesma coisa a vocs.
	No vou mais passar protetor solar, Annette  Gergia resistia.  Quando no estiver mergulhando, ficarei na sombra.
.    Por favor, Gergia, faa o que eu pedi. 
Mas tanta preocupao, eu acho um grande exagero.
Mesmo irritada com o comportamento de Gergia, Annette sorriu e disse:
	O sol vai atingi-la mesmo se estiver mergulhando. E, mesmo usando roupa, voc no est totalmente protegida. Os raios ultravioletas podem penetrar atravs das roupas, principalmente se forem feitas de material claro. Portanto,  melhor se prevenir.
	Mas...
	A moa est completamente certa  uma voz masculina interrompeu a ruiva.  Certssima. O sol tropical  muito cruel para quem no o leva a srio.
Annette, que se encontrava de costas para quem havia interferido na conversa que estava tendo com Gergia, impressionou com o tom de voz que acabara de ouvir. No, no era uma voz autoritria, no era a voz de algum que comandava. Mas, sim, uma voz profunda, que parecia saber extamente sobre o que estava falando.
Annette ento se virou e deu de cara com o desconhecido, que se encontrava a poucos metros dela. E o homem olhava para Gergia como se  espera de algum outro argumento.
Annette sentiu um ligeiro frio no estmago.
	Acredite em mim, moa, o sol daqui  terrvel. Portanto, siga rigorosamente as instrues que recebeu!  o homem recomendou.
	E isso mesmo, gente  Scott, o piloto do barco, que aparecera no convs, disse , o sol daqui  um grande perigo!
Muito sorridente, Scott se voltou para o homem que deixara Annette to impressionada e o cumprimentou surpreso:
	Oi, Lucas! O que est fazendo por aqui? No, no precisa responder a pergunta agora. No tenho muito tempo. Est querendo dar um passeio esta manh?
	Se voc me aceitar como passageiro,  isso que estou pretendendo fazer.  O sotaque neozelands dele era evidente.  Tem lugar para mim?
	Para voc tem sempre lugar, Lucas.  Scott olhou para Annette e perguntou:  Todo mundo j embarcou?
Fazendo de tudo para esquecer a presena daquele homem, Annette respondeu de uma maneira neutra, profissional:
	J. Mas antes de zarpar, por favor, espere que todos se protejam melhor contra o sol.
Annette, que esperava de novo uma reao de Gergia, viu a ruiva se abaixar, abrir a sacola e pegar o protetor solar.
Annette respirou aliviada.
Serena, a esposa de Scott, a quem Annette substitua naquela viagem, uma vez lhe dissera que alguns turistas s iam entender tanta precauo depois que o sol j tivesse feito o maior estrago na pele.
	E ento? Podemos zarpar?  Scott perguntou, depois que Gergia passou o protetor.
Agora, podemos, simAnnette disse.  Estamos prontos. Scott voltou para a sala de comando e logo o barco comeou a deixar o cais.
Annette, que estava olhando a praia, de repente ouviu um dos passageiros gritar:
	Ela caiu na gua!
Annette, sem saber a quem o passageiro se referia, no pensou duas vezes: correu e mergulhou na gua. E, no instante em que estava mergulhando, conseguiu distinguir a cabeleira ruiva de Gergia.
Com braadas vigorosas, em segundos, Annette se encontrava ao lado da moa. Num gesto rpido a segurou e disse:
	Calma, muita calma.
	Me solte, eu...  Gergia interrompeu a frase no meio, por causa da gua que acabara de engolir.
	Vou lev-la de volta ao barco, tente boiar. Se continuar se debatendo, ns duas vamos nos afogar.
Gergia se postou de costas.
Sempre segurando-a com firmeza, Annette nadava em direo ao barco que j estava com o motor desligado.
	Pode deixar que agora eu vou sozinha.  Gergia afastou o brao que a segurava e seguiu nadando at o barco. Porm, ao ver que seria Scott quem iria ajud-la a sair da gua, pareceu ficar bastante desgostosa.
Annette assistia Scott puxar Gergia da gua. Quando a moa j estava no convs, Annette se apoiou na escadinha e fez meno de subir. Ao olhar para cima, viu que algum lhe estendia uma mo. Agradecida, segurou a mo e terminou a subida. S ento, j no convs, viu quem tivera aquele gesto to cavalheiresco.
	Obrigada...
Lucas no respondeu, apenas meneou a cabea.
	Sinto muito, sinto muito mesmo  Scott dizia  Gergia.  Eu zarpei com todo cuidado, bem devagar. Isso nunca tinha acontecido antes no meu barco.
	No se preocupe, querido, estou tima. E vou ficar melhor ainda quando me enxugar.
	Mas voc poderia ter se machucado.
	Felizmente, eu no me machuquei.  Gergia voltou a abrir a sacola de onde retirou uma toalha. E, sem nenhum tipo de pudor, iniciou mais uma performance. - E no foi culpa sua, Scott. Devo ter me ausentado um pouco. Sou uma mulher muito romntica, muito sonhadora. A, o barco zarpou, e eu acabei me desequilibrando e caindo.
	Mesmo assim, quero que me desculpe.
Gergia, virando-se para Annette, pediu:
	S espero que voc, queridinha, no comente nada com sua irm sobre esse lamentvel incidente. Eu apenas me de sequilibrei. Agradeo a sua ajuda, mas tenha certeza que sairia dessa sozinha. Nado muito bem. Est certo que nem d para me comparar com voc, mas eu tambm nado muito bem.
	Se quiser trocar de roupa, tem uma cabine l embaixo que voc pode ocupar  Scott ofereceu.
	No ser necessrio.  Olhando para Annette, a ruiva deu um sorrisinho afetado.  E pode ficar tranquila, Annette, assim que acabar de me enxugar, vou passar mais protetor solar.
	Acho timo  Annette respondeu simplesmente.
Quando Gergia se afastou, Scott dirigiu-se a Annette e Lucas:
	Pelo jeito, vocs no se conhecem. Lucas, esta  a minha prima Annie Carruthers, que est me dando uma ajuda aqui. Annie, esse  Lucas Tremaine. No ano passado, vindo do Hava, Lucas deixou o iate na marina para que eu tomasse conta e foi para a Nova Zelndia.
	Muito prazer.
	O prazer  todo meu  Lucas respondeu, olhando para a camiseta molhada dela.  Mas pensei que seu nome fosse Annette.
	E  Annette, sim. Mas as pessoas da minha famlia s vezes me chamam de Annie.
	Um apelido muito comum para um mulher to mpar. Eu a vi ganhar a medalha de ouro nos Jogos Olmpicos. Sempre quis concorrer a uma medalha olmpica.
	E por que no fez isso?
	Porque, um belo dia, vi que tinha outras coisas para fazer.
	Mas me diga, Lucas: o que resolveu fazer por esses lados? Ser que est pretendendo navegar de novo por esses mares, sem rumo certo?  Scott perguntou.
Antes que Lucas respondesse  pergunta, algum chamou por Scott.
	Me desculpe, mas tenho muito o que fazer. Depois a gente conversa, Lucas.
	Certo.
Intimidada com aquela presena mscula, Annette disse:
	Eu tambm tenho trabalho para fazer, com licena.
	Esteja  vontade. Eu, de minha parte, me sinto como se estivesse em casa. Praticamente passei os ltimos cinco anos no mar.  Em seguida, Lucas se misturou aos outros turistas.
	Posso seguir?  Scott indagou a ela.
	Pode!  Annette respondeu e seus pensamentos voltaram-se para Lucas Tremaine.
"Ele sabia da minha medalha Olmpica. Ainda bem que Gergia no estava por perto quando Lucas se referiu a ela. Tenho certeza de que fiquei muito vermelha."
Olhando para o mar, Annette inspirou profundamente.
Devagar, o barco voltou a se movimentar.
Annette, ento, olhou para o grupo de mergulhadores com o qual trabalharia. Eles pareciam muito animados. Ento, observou que, ao lado da cabine de comando, Lucas sorria para uma mulher.
Apesar de ficar meio insatisfeita com aquele sorriso, lembrou-se que precisava entreter os turistas at chegarem ao lugar de mergulho.
Annette, ento, foi at a cabine, pegou o microfone e deu as boas-vindas aos passageiros. Em seguida lhes informou que, depois do mergulho, aportariam numa ilha fantstica, fariam um churrasco sob belas palmeiras e, s depois do churrasco, voltariam.
Annette sentia-se muito feliz por h trs semanas ter atendido ao chamado de Scott. Embora tivesse de lidar com alguns turistas que se mostravam bastante rudes e autoritrios, a maioria deles era extremamente simptica. E Annette adorava Fala'isi. Aquela ilha era fantstica: montanhas encantadoras, vegetao luxuriante, praias com areias brancas. Fala'isi era um pedao do paraso nos mares do sul. E Annette, alm de adorar Scott, tambm gostava muito dos amigos do primo: um misto de desterrados, ilhus e turistas.
"A vida no pode ser mais perfeita do que esta que se leva aqui", ela concluiu em pensamento. "S tenho que me manter fria diante daquele deus loiro que resolveu viajar hoje conosco. Se conseguir fazer isso, estar tudo resolvido, no correrei o menor risco."
Embora estivesse fazendo de tudo para manter o olhar em qualquer coisa que no fosse Lucas Tremaine, Annette logo viu quando Gergia se aproximou dele. E os dois comearam a conversar. A ruiva, muito atenciosa, no fazia questo nenhuma de esconder que estava muito interessada nele.
Alguns minutos depois, Annette viu uma outra mulher interferir na conversa e sentiu dentro do peito algo que s pde definir como inveja.
" exatamente inveja o que estou sentindo. Jamais teria coragem de me aproximar assim de um homem. Sou tmida demais. E no gosto nada dessa timidez. Acho que essa minha altura e esse meu corpo atltico acabaram fazendo de mim uma mulher muito insegura. S me sinto  vontade quando estou praticando esporte. A, sim, sou dona do meu prprio corpo, sou dona de mim."
Embora acostumada com aquele tipo de sentimento, Annette detestava senti-lo.
"Mas fazer o qu? Num mundo onde  valorizado um outro tipo de beleza feminina, jamais vou deixar de ser uma espcie de extraterrestre. Tenho certeza que homem nenhum j me achou sexy. Eles apenas gostam de mim. S isso. Mas no me acham feminina, no me acham o tipo de mulher que os deixam loucos, fora de controle. At meu ex-noivo acabou me trocando por uma mulher baixinha, magrinha e toda delicada. Sei que Mark ficou com muito medo de me ferir mas, se ele me trocou por outra, com uma compleio fsica totalmente diferente da minha  porque, com toda certeza, no se sentia atrado por mim." Ela deu um profundo suspiro. "Na verdade, ele disse que no se sentia atrado por mim. Mas a vida  assim e eu tenho que viv-la da melhor maneira possvel. E tambm preciso aprender a me valorizar mais como ser humano e, principalmente, como mulher. Sobrevivi ao trmino do noivado com Mark. Sobrevivi e me sinto muito bem."
Uma risada de Gergia lhe chamou a ateno.
"Gostaria de, um dia, ser capaz de rir assim livremente e no ter o mnimo pudor de ser ridcula. Afinal, deve ser muito bom poder ser ridcula de vez em quando e no ficar sempre pensando em ser coerente, perfeita."
Naquele momento Lucas sorria para a outra mulher que ousara ir conversar com ele e com Gergia.
"Se eu fosse mais desinibida, estaria l me divertindo com eles, ou estaria conversando com os outros passageiros e no ficaria aqui na cabine trancada. Bem, j que quero vencer a minha inibio,  melhor eu sair da cabine e ir l para o convs. Apesar de tudo, a vida tem sido muito boa para mim."
Assim que Annette chegou no convs, uma voz masculina muito amistosa lhe disse:
	Que vista maravilhosa!
	E linda mesmo  ela respondeu e segurou-se na amurada.  Com esse cu e com esse mar a gente pode querer mais o qu?
	Voc tem toda razo  o passageiro concordou.  Tempo bom e a perspectiva de passar um dia inteirinho mergulhando e comendo... A gente pode querer mais o qu?
O passageiro ficou em silncio e Annette sentiu muita pena dele.
"Esse homem me parece muito deslocado. Mas a verdade  que ele no tem o carisma do deus loiro que continua conversando muito com Gergia e com a outra turista. Isso sem contar com as outras mulheres que no pararam de fit-lo at agora."
	Mas pensando melhor  o homem disse , estou precisando de uma boa companhia.
"Eu sabia! Se Lucas no estivesse a bordo, esse homem teria mais chance. Mas com um espcime to raro como concorrente, no fica nada fcil ser notado."
	Tem razo, uma boa companhia  essencial  ela respondeu, vagamente.
De repente, o barco comeou a jogar um pouco e uma onda mais forte, ao se quebrar contra o casco, fez com que respingos cassem no convs.
	Se no quiser se molhar, pode ir ficar na parte de baixo do barco  Annette disse ao homem.
	Muito obrigado.
	Agora, se me der licena, preciso ver se est tudo bem por a.
Annette, preocupada com os outros passageiros, foi dar uma volta pelo convs.
Quando se aproximou do local onde Lucas conversava com as duas mulheres, o barco comeou a jogar muito e uma onda violentssima atingiu a embarcao. A quantidade de gua que caiu dentro do convs foi muito maior do que na vez anterior.
Sem a menor cerimnia e rindo muito, Gergia agarrou o brao de Lucas.
"Isso, sim,  que  saber viver. Isso, sim,  maneira de se fazer notar." Annette tinha um sorriso nos lbios.
Depois de mais algumas balanadas, o barco voltou a cortar com tranquilidade as guas azuis.
O homem com quem havia conversado h alguns minutos, voltou a se dirigir  Annette, que o tratou muito bem.
"No mnimo ele no sabe quem sou eu. Os homens daqui, apesar de me tratarem com muito respeito, no se sentem muito  vontade comigo. No  fcil para eles conversar com uma mulher que ganhou uma medalha Olmpica para a Nova Zelndia."
O passageiro continuou falando a respeito da beleza da regio. E Gergia, ao lado de Lucas, continuou rindo muito.
Em um dado momento da viagem, a ruiva deu uma risada que chamou a ateno de todos. Mas Lucas, apesar de tambm ter rido, no mostrava a mesma euforia que ela.
	A moa parece muito feliz  o passageiro comentou.
	Parece, sim.
	Ela  uma mulher muito bonita. Tem um jeito muito dengoso e muito feminino.
	E verdade  Annette se viu obrigada a concordar.
Naquele instante, Lucas se afastou um pouco de Gergia e olhou fixamente para Annette.
"Meu Deus... Basta um olhar desse homem para eu me sentir totalmente sem ao. Isso sem contar que as minhas mos comeam a suar e as minhas pernas a tremer."
Gergia, atenta a qualquer gesto, a qualquer movimento de Lucas, ao ver que ele olhava para Annette, parou de rir imediatamente.
	Aquele homem  muito requisitado pelas mulheres  o passageiro comentou.
	E verdade  Annette repetiu o que havia dito h pouco.
	Parece que elas gostam muito dos tipos atlticos, com jeito de dures.
"Eu tambm. Por incrvel que possa lhe parecer, eu tambm adoro um homem atltico como Lucas Tremaine. S no gosto dos homens muito dures. Mas o Lucas transpira algo indescritvel. Uma mistura de masculinidade e autoridade que atrai a grande maioria das mulheres", ela teve vontade de dizer ao passageiro.
	Voc o conhece?  o passageiro quis saber.
	Acabei de conhec-lo agora.
	Pensei que fossem velhos conhecidos.
	Ele  amigo do meu primo Scott, o dono do barco.
Annette fazia de tudo para no olhar para Lucas.
"Ser que ele continua olhando para mim? Bem, no mnimo ele estava me comparando  Gergia. Deveria estar se perguntando: como uma mulher pode ser to alta e to forte?"
	Disse alguma coisa?  o passageiro perguntou.
	No, eu no disse nada.
	Parece que o amigo do seu primo est querendo falar com voc.  O passageiro fez um gesto com a cabea.
Trmula e sentindo a boca seca, Annette olhou para o lado. Parado a pouca distncia dela, Lucas disse:
	Podemos conversar um pouco?
	Cia.. Claro que sim  ela disse, meio titubeante, torcendo para no ficar vermelha.
	A conversa que estou querendo ter com voc  rpida.
Voltando-se para o passageiro, Annette sorriu e disse:
	Com licena. Mais tarde a gente conversa mais um pouco.
	Esteja  vontade.
Os dois foram at um banco e se sentaram.
	Vai demorar para chegarmos?  Lucas perguntou.
	Mais ou menos uns vinte minutos.
	Onde est a Serena?
	Em Melbourne, na Austrlia. A me dela foi internada.
	Sinto muito. E como est a me da Serena?
Annette mordeu o lbio inferior e depois respondeu:
	Infelizmente, no est nada bem. Falei com a Serena ontem  noite. Os testes deram positivos e a me dela ter que ser operada.
	Que coisa mais chata. Ainda bem que o Scott encontrou algum para substitu-la. Ele teve muita sorte.
	 verdade. Para mim tambm foi muito bom ter vindo para c. Sou instrutora de mergulho e a clnica que estava para comear a trabalhar sofreu um incndio. At que seja reconstruda, vai demorar ainda alguns meses. A, o Scott me telefonou pedindo ajuda e eu vim para c.
	Sorte dele.
	Meu primo teria arrumado uma outra pessoa para ficar no lugar da Serena, mas iria demorar um pouco. Como estava disponvel, resolvi aceitar o trabalho que ele me oferecia.
	Scott no poderia fazer o trabalho sozinho?
	No, ele no tem o certificado que o qualifica como mergulhador.
	Quer dizer, ento, que aqui, para mergulhar com os turistas, o mergulhador precisa de um certificado?
	Precisa, sim.
	Interessante.
	Scott se referiu ao seu iate. Est pretendendo navegar?
Acho que no. Se acontecer, sero viagens rpidas.
Sem saber o porqu, Annette se sentiu bastante aliviada com aquela resposta. E perguntou:
Voc mora em Fala'isi?
	No, nos ltimos anos tenho morado no meu iate, o Dawntreater. Agora estou morando na Nova Zelndia. Mas o meu barco est aqui sob os cuidados do Scott. Ainda no tive tempo de levar o barco embora.
	Viajar pelo Pacfico me parece muito romntico.
	E , acredite.
De repente, Annette se lembrou:
"Mas  claro! Agora eu me lembrei quem  Lucas Tremaine. Ele  um jornalista e um escritor muito famoso. Adoro o que ele escreve. Lucas, quando tinha um pouco mais de vinte anos e j trabalhava para um jornal ingls, foi cobrir uma rebelio em San Rafael, um pequeno pas do Pacfico. L ele conheceu uma jovem mulher e, depois de ter se casado com ela, a levou s e salva para a Inglaterra. Mas depois de ter publicado artigos impiedosos sobre o que acontecia em San Rafael, a casa dele foi atacada por uma bomba e a mulher dele, grvida, morreu em seus braos. Desesperado, Lucas voltou para San Rafael, se uniu aos rebeldes e se embrenhou na selva. Quando finalmente os rebeldes venceram, Lucas marchou triunfante com eles sobre a capital do pas. Depois, entrou no seu iate e desapareceu pelo Pacfico para escrever um livro sobre tudo o que tinha acontecido. O livro foi publicado com muito sucesso de pblico e crtica. Ele, depois disso, escreveu mais trs livros. O ltimo deles denunciava a explorao sexual que existe na Tailndia. Cada livro que esse homem publicou sempre resultou num grande escndalo. Com isso, Lucas Tremaine coleciona inimigos."
	Seu silncio se deve a qu?
	No, s estava pensando um pouco  ela respondeu, rapidamente.
- Tambm gosto de pensar.
	O que o trouxe a Fala'isi, Lucas?
	Vim aqui para v-la.
Aquelas palavras provocaram uma taquicardia em Annette.
Voc veio aqui para me ver?  ela perguntou, incrdula.
	Exatamente. Olvia Arundell me mandou at aqui. Hoje  seu aniversrio, no ?
	... , sim...
	Vinte e cinco anos!
	Como  que sabe disso?
	Olvia me contou.
	Olvia se casou com um amigo, Drake Arundell, e se tornou muito minha amiga.
	Ela me disse. Olvia tambm lhe mandou um presente.
	Verdade?  Annette deu um amplo sorriso de felicidade.  Que coisa mais maravilhosa. A Olvia  uma gracinha de pessoa. Disse a ela que estava vindo para c?
	No  Lucas respondeu com muita calma.  Disse  Olvia que estava indo para o Hava. E ela me pediu que desse uma passadinha aqui para lhe entregar o presente.
.	E voc veio para c s para me entregar o presente de Olvia?  Annette estava espantada.
	Exatamente. Acho que o presente que ela lhe mandou  muito importante.
	 mesmo?
	Bem, pelo menos para ela. O presente  pequeno e cabe na palma da minha mo.
	 muito estranho a Olvia pedir a voc para passar por aqui s para me entregar um presente.
	Eu tambm achei estranho, mas ela deve ter tido suas razes para me fazer tal pedido.
	E verdade...
	Sua me e sua irm lhe mandaram um beijo e um grande abrao. Eu as encontrei na casa de Olvia.
	Que timo. Estou me sentindo muito contente. Ontem recebi pelo correio uma encomenda delas.
	No sei se foi a Jan ou a sua me quem me mandou lhe dizer para no se esquecer de tomar os remdios.
	Apesar da minha altura, elas ainda no perceberam que eu cresci.
Lucas sorriu daquele comentrio.
	Espero que a sa passagem por aqui no tenha atrapalhado seus planos de viagem.
	No se preocupe com isso. Talvez eu fique por aqui mesmo. Adoro Falalsi.
"Quer dizer, ento, que ningum o espera no Hava?"
	A ilha  muito bonita, mas  um lugar muito pequeno. No se sente entediado em Fala'isi?
	De maneira alguma. Alm disso, sempre posso resolver fazer uma bela plantao de repolho por l.

	Pode mesmo  ela riu.
	Um bela plantao de repolho  uma boa maneira de se enfrentar o tdio.
	Me desculpem  Gergia os interrompeu.
	Est precisando de alguma coisa?  Annette perguntou.
	Estou  a ruiva respondeu de uma maneira afetada, bastante artificial.  Voc nem sabe como! Estou precisando de algo bem gelado. Minha sede est me matando.
	Quer um suco?
	No, eu prefiro gua mineral.
Um pouco antes de entrarem na embarcao, Annette tinha avisado aos passageiros sobre o bar que ficava atrs da cabine de comando, e que Sule, uma moa que fazia parte da tripulao, estava l para servir a todos.
	Quer mais alguma coisa alm da gua, Gergia?
	No, muito obrigada, querida. Ficarei felicssima se me trouxer a gua, antes que eu morra desidratada.
	Vou buscar a gua para voc.  Annette se levantou e deixou a ruiva com Lucas.
Ao voltar, com um copo de gua gelada nas mos, viu que Gergia havia se sentado bem prxima a ele.
	Obrigada, Annette  a ruiva agradeceu, depois de ter pego o copo.
	De nada. Agora, se me derem licena, vou ver se algum outro passageiro est com sede.
	Vai, vai, queridinha. Cumpra a sua obrigao.
"Pelo jeito, Gergia resolveu fisgar Lucas Tremaine. E, com toda certeza, vai conseguir", Annette pensava ao se afastar.

CAPITULO II

O barco, finalmente, tinha chegado ao lugar ronde mergulhariam. Scott, depois de lanar a ncora, fora com um pequeno bote colocar bias no mar para indicar o local onde haveria mergulhadores.
Annette fazia os ltimos preparativos. Aps ter verificado cada um dos tanques de oxignio, organizou os mergulhadores em pares.
	Sei que j lhe comunicaram o que vou falar, mas sempre  bom repetir: o mergulho  extremamente perigoso para aqueles que so propensos a asma e tambm queles que ficam com dificuldade de respirar quando tm uma crise de bronquite..
Os turistas, muito compenetrados, a fitavam em silncio. Annette, ento, no pde evitar um olhadela para Gergia, mas logo se envergonhou daquela atitude. A ruiva, pela familiaridade que demonstrava com o equipamento, com toda certeza j mergulhara antes.
	Quero que tambm chequem o tempo todo a profundidade em que se encontram. Existem peixes e corais fantsticos bem prximos  superfcie. Portanto, no h razo para mergulhar sempre mais e mais. Se fizerem isso, estaro aumentando o risco da narcose. Entenderam?
O grupo inteiro balanou a cabea em afirmativa.
	Mesmo no existindo ningum aqui que est mergulhando pela primeira vez, quero que fiquem bem atentos s instrues que foram dadas anteriormente. Por favor, niantenham-se sempre alertas. E no se esqueam: vocs esto mergulhando em dupla. Cada um de vocs  o guardio do outro. Portanto, vigiem sempre o parceiro. Todo cuidado com a segurana  pouco. Alguma pergunta? Se algum tem alguma dvida, no se envergonhe e fale. No quero que nenhum acidente acontea s porque algum se intimidou e no fez a pergunta que desejava.
Annette esperou alguns segundos. Como ningum se manifestava, ela disse:
 Por favor, ento, podem ir descendo. Com olhos experientes, ficou observando cada um dos turistas entrar no mar. E todos pareciam saber exatamente o que estavam fazendo, inclusive Gergia.
"Preciso ficar bem atenta. Serena me disse que tem muitos mergulhadores que detestam cumprir as regras de segurana. O ser humano  mesmo muito estranho. Por que tem gente que faz questo de colocar a prpria vida em risco?"
Annette ouviu o barulho do motor do bote em que Scott estava. E foi para a proa conversar com o primo.
	Vou ficar aqui!  Scott gritou.  Voc fica a bordo na companhia do Lucas. Pergunte  Sule se ela quer vir ficar aqui comigo.
	Certo.
Annette foi falar com Sule. A moa, dizendo que preferia descansar um pouco por causa da noite maldormida, preferiu ficar a bordo. Assim que Annette avisou ao primo a deciso de Sule, Scott agradeceu e se afastou.
	No precisava ter ficado aqui para me fazer companhia. Poderia ter ido mergulhar tambm  Lucas disse, ao se aproximar de Annette.
Mantendo o olhar fixo nas bolhas que apareciam na superfcie do mar, ela respondeu:
	Esse grupo  bastante competente. Portanto, no precisam da minha presena l com eles. Alm disso, a gua aqui  muito transparente. Se seguirem as minhas instrues poderei v-los daqui mesmo.
	Uma pessoa para mergulhar precisa ser muito corajosa.
	No, de jeito nenhum.  s seguir as instrues  risca e nada de mal acontece.
	E os novatos? Eles do muito trabalho?
	Nunca tive problema com uma pessoa que mergulha pela primeira vez. Normalmente, os novatos seguem  risca as instrues.
	Voc tambm deixa um novato mergulhar sem a sua companhia?
	No. Se no tem uma pessoa mais experiente no grupo, eu mergulho junto com ele. J tive a oportunidade de mergulhar com vrios novatos de uma vez s. A, a situao fica muito engraada.
	Por qu?
	Eles se comportam como se fossem pintainhos atrs da galinha.
Annette continuava olhando para o mar, vigiando os mergulhadores e agindo como se fosse a coisa mais normal do mundo um homem como Lucas Tremaine lhe dar tanta ateno. Mas, por dentro, sentia o corao descompassado.
"Tente se acalmar", ela se dizia em pensamento. "Ele s  bonito e muito atraente. No se comporte como se fosse uma adolescente deslumbrada. ... Mas na verdade sou uma pessoa que no viveu a prpria adolescncia. Me impediram que eu a vivesse de uma forma plena. E hoje... Hoje estou completando vinte e cinco anos."
	E o que voc faz com um grupo que mergulha pela primeira vez?
	Bem, eu lhes mostro os peixes e os corais.
	E voc gosta de fazer isso?
	Gosto, gosto muito. Me sinto muito bem quando mergulho.
	No mar?  ele perguntou, e Annette sentiu que havia uma segunda inteno naquela pergunta.
"Ser que ele est querendo saber se me sinto muito bem quando mergulho dentro de mim mesma? No, sr. Lucas Tremaine, quando mergulho dentro de mim mesma, s vezes me sinto perdida, me sinto muito s. Mas, no posso dizer isso tudo ao senhor."
	O mar  sempre uma grande surpresa  ela respondeu, ento. E resolvendo mudar de assunto, disse:  Quando ouvi o seu nome, sabia que j o tinha ouvido antes. Est escrevendo um novo livro?
	Estava.
	Estava? Como assim?
	Acabei de mand-lo para a editora.
E o livro  bom?
No sei, tenho l minhas dvidas.
Por qu?  Sempre atenta ao mar, ela quis saber.
Me sinto muito inseguro quando termino um livro.
 mesmo? Quem diria!
Para voc ver.
E qual foi a opinio do seu editor?
Ainda no sei.
Tenho certeza que o livro est muito bom.
Espero que esteja mesmo.
	Voc  um daqueles escritores com uma autocrtica sufocante, Lucas?
	Minha autocrtica , sim, bastante exacerbada. s vezes nem eu me suporto, tamanha  a exigncia que tenho comigo mesmo.
	Isso no  muito bom.
	Uma autocrtica muito grande acaba inibindo a criatividade. E isso acontece em qualquer campo que uma pessoa resolva trabalhar.
	Voc est certssimo.
	Pois ...
	Quer dizer que, depois de mandar o novo livro para publicao, resolveu tirar umas frias no Hava.
	Mais ou menos.
	Como assim, Lucas?
	Bem, estava indo para o Hava fazer umas pesquisas para o livro que estou pretendendo escrever.
	Nunca pensou em escrever fico?
	Como todo bom jornalista, sempre acredito que, um dia, vou escrever um grande livro de fico.
	E voc deveria fazer isso. Sua maneira de escrever  incrivelmente impactante, vvida. Quando ficar sabendo se o livro que acabou de escrever vai ser aceito?
	Ele j tinha sido aceito antes que eu o escrevesse.
	 mesmo?  Ela perguntou espantada e, pela primeira vez desde que haviam iniciado a conversa o fitara, desviando sua ateno das guas transparentes do mar. Mas isso aconteceu durante apenas alguns segundos.
	Como isso pde acontecer?  Annette quis saber.
	O qu?
	Esta histria do livro ter sido aceito antes que estivesse escrito.
	Tenho um excelente agente.
Annette no conhecia absolutamente nada sobre como funcionava o mundo editorial.
"Para um livro ser aceito mesmo antes de ser escrito, o escritor tem que ser muito respeitado." Annette deu um profundo suspiro. "Acontece que Lucas Tremaine  um escritor muito respeitado!"
	Acho que li todos os seus livros  ela disse.
	 mesmo?  ele perguntou com um certo espanto.
	Pelo seu jeito, tenho certeza que pensou que eu nunca tivesse lido um livro sequer em toda a minha vida.
	No  isso, eu...
	Por favor, no se sinta constrangido. Tem muita gente que acha que o atleta s desenvolve os msculos e se esquece do crebro.
	 verdade, tenho que admitir que fao parte dessas pessoas  ele disse com extrema sinceridade.  Mas me diga: o que achou dos meus livros?
	Maravilhosos. Como lhe disse h pouco, voc tem um estilo todo particular: seus livros so impactantes de verdade.
	 muito bom ouvir isso.
	Como voc se sente quando escreve?
	As vezes muito tenso, sozinho.
	Tenso?
	, tenso. E sempre um grande desafio encontrar a palavra exata, sem deixar que o texto perca a fluidez, a objetividade.
	Quer dizer, ento, que no sente prazer quando escreve?
	E quem disso isso?
	Bem, eu deduzi.
	No  sempre que me sinto tenso. Na maior parte do tempo, me sinto muito bem, em comunho com o mundo.
	Deve ser uma sensao maravilhosa.
	Pode acreditar que , sim.
	Voc, quando escreve, pensa no leitor, Lucas?
	No.
	Por qu?
	Tenho medo de trair as minhas prprias ideias. Se ficasse pensando no que os outros iriam achar do que estou escrevendo, com toda certeza, comearia a me policiar e no escreveria de uma maneira espontnea.
	E como  que voc escreve?
	Bem, tenho um computador porttil que se tornou um amigo inseparvel.
	Existem muitos escritores que at hoje no conseguem usar um computador.
	Eu sei disso. Mas para mim no foi nada difcil passar de uma mquina eltrica para um computador. No incio me atrapalhava um pouco com os comandos, mas logo acabei me habituando. Alm disso, o computador tem uma vantagem: no preciso mais ficar rasgando as folhas que acho que no esto boas. E s apagar tudo o que escrevi e no gostei. Fica muito mais fcil.
 Nem diga  Annette concordou.
E os dois continuaram conversando como velhos amigos. No final, quando os mergulhadores comearam a voltar para o barco, Annette percebeu que apesar de falar muito sobre a carreira, Lucas em momento algum havia mencionado a falecida esposa, nem o tempo em que vivera em San Rafael. E ela, em momento algum, havia mencionado a poca em que havia ganho a medalha Olmpica.
Quando todos os mergulhadores j estavam a bordo, Annette recolheu os tubos de oxignio e voltou a pedir que passassem protetor solar na pele.
Todos se mostravam muito contentes e no cansavam de falar sobre as belezas que tinham visto na gua.
	Aquilo l  um outro mundo  Lya, uma moa com cerca de dezoito anos comentou.  E inacreditvel como a natureza  prdiga, generosa.
	E tem gente que ainda no tem a menor noo do que seja a natureza  uma outra garota comentou. Agora  moda se falar em preservao do ambiente, mas a maioria das pessoas age como se a natureza fosse inesgotvel.
Naquele momento, uma ampla conversao se iniciou. E todos, inclusive Gergia, se mostraram ferrenhos defensores do planeta Terra.
De lado, e participando pouco da conversa, Annette estava se sentindo muito bem.
"Hoje a coisa foi diferente. E quando os turistas voltam do mergulho que resolvem falar sobre a minha vida de atleta. Felizmente, pelo jeito, no serei o alvo da ateno de todos."
Os passageiros continuavam conversando animados. Annette, ento, disfaradamente, olhou para Lucas. Ele, em silncio, prestava ateno em tudo o que era dito.
"Lucas  um homem muito vivo. At agora ningum descobriu a ilustre personalidade que est a bordo. Se descobrirem, tenho certeza que ele no ter mais sossego."
O barco j estava sendo amarrado ao ancoradouro da ilha onde seria realizado o churrasco.
	Que cheiro mais gostoso de peixe  um dos turistas disse.
	Estou morto He fome  um outro comentou.
	Mas essa ilha mais parece tirada de um carto-postal!  Lya exclamou, eufrica.
Devagar, todos foram descendo do barco.
Na praia, um homem australiano mais velho e gordo, que se mantivera calado durante toda a viagem, se aproximou de Annette e perguntou:
	Voc  Annette Carruthers, no ?
	Sou, sim  ela respondeu, muito intimidada.
	Eu a vi nos Jogos Olmpicos. Voc esteve brilhante.
	Obrigada.
	Seja l o que tenha acontecido, voc mereceu aquela medalha.  O tom do australiano havia se tornado cmplice e, na certa, como todos os que tinham assistido  Olimpada, tambm esperava que ela fizesse algum comentrio sobre os rumores que haviam empalidecido aquele triunfo Olmpico.
Ao perceber a atitude do homem, Annette aparentemente se manteve impassvel. Mas, em seu ntimo, sentia-se pssima. Apesar de ter acontecido h anos, aquela ferida ainda sangrava muito. E a ferida s iria cicatrizar de verdade quando Victoria Sutter tivesse a humildade de confessar que havia mentido.
Voc mereceu mesmo aquela medalha  o australiano insistiu.
Ela inspirou profundamente e respondeu:
	Obrigada.
No instante em que o passageiro ia fazer um outro comentrio, Lucas o interrompeu:
	Annette, por favor, gostaria que me respondesse a uma pergunta.
"S faltava agora o Lucas comear a falar sobre as Olimpadas!"
	O que foi?  ela perguntou, num tom de voz neutro.
	Tem vrias pessoas querendo coletar essas maravilhosas conchas que existem por aqui. Elas podem fazer isso? E permitido?
	...  permitido, sim. Mas antes elas precisam ver se no esto coletando mariscos vivos.
	Acho melhor explicar a elas como se faz isso. Voc me acompanha?
	Acompanho.  Depois de sorrir para o australiano, ela se afastou na companhia de Lucas.
	O que aconteceu?  ele quis saber, aps estarem a uma boa distncia do homem.
	Nada.  A negativa saiu automaticamente.
	Como? Como no aconteceu nada? Voc est branca como cera. E quando o barco atracou voc me pareceu muito bem-disposta.
	Eu continuo muito bem-disposta, Lucas.
	No, algo lhe aconteceu. No quer me falar a respeito?
	No tenho nada para lhe falar.
	Como voc  durona.
	No, eu no sou durona, muito pelo contrrio.  Ela sentiu que seus olhos estavam cheios de lgrimas.
	, voc no  durona. Foi uma avaliao errada da minha parte. Se fosse durona, no estaria com os olhos cheios de lgrimas.
	No estou com os olhos cheios de lgrimas.
	Claro que no  Lucas ironizou.
	Foi apenas...
	Areia que caiu no seus olhos  ele completou-lhe a frase e Annette se sentiu totalmente desarmada, vulnervel.
	Eu tambm choro, sabia?
	Que coincidncia: eu tambm! E sempre que choro  porque algo est me perturbando muito. Que tal confiar um pouco em mim?
"Se eu confiar em voc, Lucas Tremaine, tenho certeza que vou acabar mais machucada que nunca. Voc no  homem para uma mulher como eu. Na verdade, acho que nunca vou encontrar um homem que me queira de verdade, que no tenha restries sobre mim."
	No vai me contar o que a aborreceu tanto?
	Nada me aconteceu, Lucas.
	Aquele grandalho desrespeitou voc?
	De jeito nenhum. Nem pense numa coisa dessa!
	Se  assim... Vou respeitar o seu silncio.
"Otimo! Otimo, sr. Tremaine, me deixe sozinha com a minha dor."
Mas Lucas, mesmo no tocando mais no assunto que a aborrecera, no a deixou sozinha. Nem naquele momento nem nas horas que se seguiram.
Quando chegaram em Fala'isi, antes de descer do barco, Lucas disse:
	O Scott comentou comigo que est hospedada na casa dele, Annette.
	 verdade.
Ser que posso levar o presente de Olvia para voc hoje  noite?
	Se no for atrapalh-lo...
	No, no vai me atrapalhar. L pelas sete eu passo por l.
Sem dizer mais nada, Lucas saiu do barco e foi embora.
Quando Annette j estava indo para casa de carro, ao lado de Scott, ele disse:
Hoje vou lev-la para jantar, moa. Depois vamos a uma boate.
	Vou adorar jantar com voc, Scott. Mas depois do jantar quero voltar para casa. No sou mulher de frequentar boate  ela disse, com cuidado.
	Mas claro que .
	No, eu no sou.  Alm de se sentir muito constrangida em boates, Annette no queria que o primo gas
tasse muito dinheiro.
	Mas hoje  o seu aniversrio!
	Posso muito bem passar o meu aniversrio em casa. A gente nem precisa sair para jantar.
	De maneira alguma! Ns vamos jantar e depois vamos, sim, a uma boate. Afinal, hoje  o seu vigsimo quinto aniversrio.
	Por favor, Scott, no insista.
	Eu insisto. E, indo a uma boate comigo, estaria me prestando um grande favor. Afinal, para continuar com o meu barco, preciso conhecer gente nova.
	Se  assim...  Ela riu.  E onde est pretendendo me levar para jantar?
	Num restaurante chins maravilhoso.
	E o que devo usar?
	Algo que no seja quente e que seja simples e confortvel. A maioria das mulheres estar usando sarongue.
"Alm de ser caro, eu no fico bem de sarongue."
	Scott, vou usar algo simples e confortvel, mas no vai ser um sarongue.
	A escolha  sua.
	A propsito: Lucas vai passar s sete na sua casa.
	E mesmo? Que timo!
	Ele vai me levar um presente mandado por uma amiga.
 Ela fez uma pausa e perguntou:  Voc s o conheceu no ano passado?
	No. Eu...  Scott interrompeu a frase para gritar com um pedestre que estava atravessando a estrada.
	Ento, chegou a conhecer a mulher dele?
	Mas  claro que sim. Uma vez encontrei com Lucas e a esposa em Fiji. Eu estava l com a Serena.
	O que aconteceu com ela foi uma grande tragdia.
	Meu Deus! E que tragdia! Clara era uma moa in
crvel, alm de belssima, era muito simptica, aberta e muito engraada. Sabe dessas pessoas que fazem a gente acreditar que vale a pena viver?
	Sei.
	Pois a mulher do Lucas era assim. Quando li no jornal que ela tinha sido assassinada, quase no pude acreditar.
	O Lucas deve ter sofrido muito.
	No sei como conseguiu dar a volta por cima e se recuperar. Eu, no lugar dele, teria sucumbido de vez.
Os dois continuaram conversando sobre Lucas. E, a cada instante que passava, Annette se sentia mais e mais interessada por aquele homem que j sofrera tanto na vida. 
Um pouco antes das sete, usando sapatos de saltos baixos e um vestido florido de linho, Annette aguardava a chegada de Lucas.
Voc est muito bonita, priminha  Scott disse, ao entrar na cozinha.
Obrigada, Scott. Voc tambm est muito bem com essa camiseta.  nova?
E. Ganhei da Serena no meu ltimo aniversrio.
Ela tem um gosto excelente. Verde-claro lhe cai muito bem.
	Mas  claro que a minha mulher tem um gosto excelente. Se no fosse assim, acha que teria se casado comigo?
Annette riu do jeito do primo.
Aceita um copo d'gua?
No, muito obrigado.
A campainha tocou.
	Deve ser o Lucas  Scott disse e foi atender a porta.
Quando voltou para a cozinha, estava perguntando a Lucas:
 E ento? Me acompanha numa cerveja?
	Eu...
	Tenho uma ideia melhor ainda: voc me acompanha numa cerveja e depois poderia sair conosco  Scott o interrompeu.  Estamos indo jantar no Jade Horse.
	Oi, Annette.
	Oi, Lucas.
	E ento? Vai ou no vai jantar conosco? A comida de l  muito boa.
	No quero atrapalh-los.
	E quem disse que vai nos atrapalhar? Deixe de histria, Lucas. Vai ser um grande prazer para ns poder desfrutar mais um pouco de sua companhia. No , priminha?
Annette que observava como Lucas estava bem de cala cinza e camisa cor-de-rosa de mangas curtas, no ouviu a pergunta que Scott lhe havia feito.
	E ento, priminha? Acha que o Lucas vai nos atrapalhar se for conosco ao restaurante?
	De maneira alguma.  Ao responder, ela viu o pequeno pacote que Lucas tinha nas mos.  Seria um grande prazer t-lo conosco.
	Viu s?  Scott perguntou, feliz da vida.
	Se  assim, vou jantar com vocs.
	Scott insistiu muito para que sassemos para jantar.
	Mas hoje voc merece comemorar. No  sempre que completamos vinte e cinco anos.
	 verdade:  Ela sorriu por causa da brincadeira de Lucas.
Vou at o meu quarto e j volto.  Scott os deixou sozinhos.
	Voc no se parece com a sua irm, Annette.
	Na verdade, s temos a mesma me.
	Quantos anos Jan  mais velha que voc?
	Cinco.
	Bem, aqui est a encomenda que Olvia lhe enviou.
A curiosidade de Annette em saber o motivo que levara a amiga a mandar a encomenda atravs de Lucas, era muito maior do que saber, propriamente, qual seria o contedo do pacotinho.
	Voc sabe do que se trata?  ela perguntou, quando pegou o pacotinho da mo de Lucas.
	No, eu no sei. Mas se voc o abrir, mataremos a nossa curiosidade.
	Sente-se.  Ela indicou-lhe uma cadeira.
	Primeiro as damas.
	Certo, primeiro as damas.  Annette sentou-se e aguardou que ele tambm se sentasse.
	E ento? No vai abrir o presente?
	Mas  claro que sim.
Devagar, Annette abriu o pacote e se deparou com um pequeno porta-retrato, com a figura de uma jovem mulher.
	Ela  linda...
	Voc e a Olvia, pelo jeito, trocam presentes muitos estranhos  ele brincou.  E esse objeto deve ter muito valor.
	Com toda certeza. Ela s pode ter se enganado. Esse objeto deve ser uma herana de famlia.
	Acho que a Olvia no se enganou. Ela fez questo de me dizer que era para eu tomar muito cuidado com o pacote. Tambm fez questo de me dizer que, caso voc protestasse e dissesse que o presente no lhe pertencia, era para eu ignorar os seus protestos.
Desde que abrira a caixinha que continha o delicado porta-retrato, Annette no conseguira deixar de olhar para aquela figura de mulher.
	As vezes a expresso dela parece que muda.
	Deixa eu dar uma olhadinha  Lucas pediu e se aproximou mais dela. Annette, ento lhe entregou o objeto.
	 um trabalho fantstico. Gostaria de ter pintado este retrato. Quem o pintou era um verdadeiro mestre.  Ele passou de leve a ponta do indicador sobre a boca da jovem.
	Uma mulher pode t-lo pintado.
	Ser?
Os dois ficaram em silncio. E, de novo, a estranha sensao que se apoderara dela, quando havia conhecido Lucas, se manifestou. Era como se cada clula do corpo de Annette vibrasse intensamente.
	Acho que foi o amante dessa mulher quem a retratou  ele comentou, como se falasse consigo mesmo.
	E ento? Prontos para o jantar?  Scott entrou na cozinha muito alegre. Ao ver o porta-retrato nas mos de Lucas, perguntou.  O que  isso?
	O presente que a minha amiga me mandou  Annette respondeu.
"Acho que estou perdendo o controle sobre mim mesma. Por que estou sentindo isso tudo?"
	Amanh, vou ligar para Olvia e saber quem  essa mulher misteriosa  Annette disse.
Olhando para o retrato, Lucas nada comentou.
	Se ele tiver muito valor, podemos guard-lo num cofre no banco. Por aqui no temos muitos roubos, mas nunca se sabe...  Scott sugeriu, num tom de voz normal, se notar o clima diferente que pairava no ar.
Lucas, ento, colocou o porta-retrato na mo de Annette, E quando ela sentiu o toque leve dos dedos dele, estremeceu.
"Desse jeito eu acabo enlouquecendo. Nunca senti nad semelhante em toda a minha vida!"
Vou guardar o porta-retrato. J, j estarei de volta.  Ela se levantou. Porm, ao passar pela sala, no resistiu.
Pegou o telefone e ligou para Olvia.
	Mas que prazer em ouvi-la, Annette.  Olvia ficou muito feliz ao ouvir a voz da amiga.  Ia pegar o telefone para ligar para voc e cumpriment-la pelo aniversrio.
Meus parabns, querida, espero que seja muito feliz.
	Muito obrigada, Olvia.
	O que foi? Voc no est se sentindo bem?  Olvia pressentiu que algo acontecia com a amiga.
No, estou tima.
E o presente? Recebeu o meu presente, Annette?
Recebi sim. Ela  linda.
Tinha certeza que ia gostar.
	Mas Olvia, o seu presente  um objeto muito raro. No posso ficar com ele.
	Pode. Pode e vai.  Olvia riu do outro lado da linha.
	Mas ele deve ter custado muito caro.
	No se preocupe com isso, Annette. Simplesmente desfrute da beleza de um objeto raro.
	Drake sabe que voc o enviou para mim?
	Mas  claro que sabe.
	E ele concordou?
	Pode ficar tranquila. Drake concordou, sim, que eu lhe enviasse o porta-retrato.
	Mesmo assim, acho que no devo ficar com ele.
	Voc no tem opo, Annette,  ela quem decide com quem quer ficar.
	O que est querendo dizer com isso?  Annette estava assustada.
	Relaxe, minha amiga. Aquela linda mulher no tem nada a ver com feitiaria. Ela simplesmente sabe com quem quer ficar. E isso.
	Bem...
	Vamos fazer uma coisa: voc fica com o porta-retrato enquanto estiver a em Fala'isi. Depois, quando voltar para c, se no o quiser mais, voc o devolve para mim. Certo?
Para Annette nada estava certo. Mas no se sentia capaz de dizer aquilo  amiga.
	Tudo bem  ela respondeu, meio vacilante.
	Veja aquela linda mulher apenas como uma visitante temporria. Mas me diga: o que achou de Lucas Tremaine?
	Uma pessoa muito interessante.
	Realmente ele  uma pessoa muito interessante. Gosto muito do Lucas.
	Ele resolveu ir jantar conosco hoje.
	O Lucas? Mas que timo! Quer dizer ento que hoje, para comemorar o seu aniversrio, ter dois guardies.
	Viu s?  Annette sorriu.
	Aproveite, Annette. Voc merece se divertir.
	E o seu irmo, como vai?
	Simon est timo.
Simon era o meio irmo de Olvia que morava com ela e com Drake.
	Simon est a?
	No, ele est na casa de um amigo. Venha nos visitar
quando voltar para c.
	Farei isso. Tenha uma boa noite, Olvia.
	Voc tambm, Annette. E... divirta-se!
Ao desligar o telefone, Annette voltou a olhar para a mulher do porta-retrato.
	Voc  mesmo muito bonita. Bem-vinda a minha vida, seja voc quem for.  Ela foi para o quarto e guardou o porta-retrato dentro de uma gaveta com extremo cuidado.

CAPITULO III

	Com quem voc estava falando?  'Scott perguntou assim que Annette voltou para a sala. Ele e Lucas tomavam um copo de cerveja.
	Com Olvia.
	E como est ela?  Lucas quis saber.
	Est muito bem.
	Aceita um copo de cerveja, priminha?
	No, muito obrigada.
	Eu sabia. Sabia que voc no iria aceitar. Portanto, j deixei um copo de suco aqui para voc.  Scott lhe entregou um copo com suco de laranja.
	Obrigada.  Annette pegou o copo e se sentou.
	Lucas estava me dizendo que vai mesmo para o Hava.
Apesar de no ter gostado nada de ouvir aquilo, Annette disse:
	E pretende ficar por l durante muito tempo?
	Uma semana, no mximo duas, o tempo suficiente para fazer as minhas pesquisas. Depois, volto para Nova Zelndia. Preciso trabalhar. Tenho uma casa, numa colina, prxima  praia em Coramandel. L  um local perfeito para um escritor.
Scott, ento, comeou a falar sobre a poca em que ele e Lucas tinham frequentado a escola juntos.
	Vocs foram colegas de escola?  ela perguntou.
	Fomos, sim, pensei que tivesse lhe contado  o primo disse e, em seguida, tomou um gole de cerveja.
	Que eu me lembre, voc no me disse nada.
Scott, ento, comeou a falar sobre os ex-colegas e quis saber se Lucas tinha notcia de um tal de Old Ropy. Mas Lucas no sabia do paradeiro do rapaz.
Durante os minutos que se seguiram Scott, animado, s perguntava dos ex-colegas.
Annette, calada, s fazia ouvir.
Em um dado momento, Lucas comentou:
	Essa conversa deve estar sendo entediante para a Annette. Ela no conhece ningum desse pessoal.
	Annie? Entediada? No, imagine...  Scott deu um amplo sorriso para ela.  Minha priminha  uma pessoa muito tranquila.  uma das poucas pessoas que conheo que s fala o estritamente necessrio. Annie no  como as outras mulheres que falam o tempo todo e deixam a ns, os homens, desesperados.
Annette no gostou daquele comentrio. "Eu fui, sou e sempre serei a diferente. Nunca, nunca dizem que sou igual s outras mulheres. E isso no  nada
fcil de encarar!"
	Voc no acha que eu tenho razo, Annie?
	Sobre o qu, especificamente, voc est falando, Scott?
	Do fato de voc ser uma pessoa muito sensvel e extremamente reservada.
Torcendo para no ficar vermelha, ela disse:
	Sou como todos os mortais. E agora, que tal ns irmos jantar?
O restaurante, muito aconchegante, oferecia pratos muito saborosos.
	Sempre gostei de comida chinesa  Lucas disse, quando j estavam terminando o jantar.
	Eu tambm.  Scott parecia muito satisfeito.   incrvel como nesta regio do mundo a gente encontra excelentes restaurantes.
	Concordo com voc.
J que concorda comigo, Lucas, bem que poderia escrever um livro a esse respeito. J tenho at o ttulo: A comida maravilhosa do Pacfico. J pensou? Tambm seria um best-seller. Todos os turistas iriam comprar.
 Vou pensar na sua sugesto  Lucas disse, com sorriso nos lbios.
At aquele momento, Annette praticamente s ouvira conversa entre os dois. E Lucas e Scott tinham conversad muito. Mas ela notou que Lucas, como em seus livros, no se expunha. Apenas falava de tudo, de uma maneira geral mas nada que pudesse compromet-lo emocionalmente.
"E eu gostaria muito de saber mais a respeito dele. Esse homem teve e tem uma vida riqussima em aventuras. O que ser que sentiu, e como ser que foram seus dias, na poca em que se juntou aos rebeldes? Mas Lucas deve se preservar tanto, por causa da tragdia que se abateu sobre ele e a esposa. Imagine, a moa estava grvida. Deve ter sido realmente uma perda desesperadora. E incrvel o destino: de repente, nos impinge situaes quase insuportveis. E perder assim, sem mais nem menos, a pessoa amada... Acho que no teria estrutura emocional para aguentar uma situao to drstica. Deve ser por causa disso que Lucas  to reticente para comentar sobre a sua vida pessoal. Ele deve mant-la trancada a sete chaves, deve ter trancado todas as recordaes que, agora, s a ele pertencem. E  compreensvel, muito compreensvel que aja dessa maneira."
	E ento, priminha, por que esse silncio todo?
	Eu estava ouvindo.
	Voc est sempre ouvindo. Pena que as outras mulheres no sejam como voc.  Scott riu.
"De novo?"
	Voc me parece que tem um certo ressentimento com as mulheres, Scott.
	Viu s? Viu s, Lucas? Essa  a Annie que poucas pessoas conhecem. Ela se mantm calada, atenta, mas quando resolve falar  para disparar um golpe certeiro contra a gente.
	No quis ofend-lo, e voc sabe disso.
	No me ofendeu, pode ter certeza. No me ofendeu de maneira alguma. Mas que a maioria das mulheres fala demais, isso no podemos negar!
	Cada um, Scott, tem uma maneira prpria de se expressar. E, acredito, que durante os sculos, a nica oportunidade que deram para que as mulheres se expressassem, foi atravs da linguagem oral. E isso quando a cultura em que viviam permitia. Agora o golpe foi mais certeiro ainda.  Scott voltou a rir. ---Mas, pensando melhor, voc tem toda razo, Annie.
Lucas ouvia aquilo tudo calado.
	Me desculpe se ofendi voc, Scott.
	No  o que  isso? Voc no me ofendeu. Mas pode ter certeza que terei muitas coisas em que pensar. Nunca tinha imaginado a tagarelice das mulheres sob esse ponto de vista. Normalmente, todas as situaes so vistas do ngulo que nos  mais favorvel.
	Beleza de raciocnio  Annette sorriu, feliz com a concluso a que o primo tinha chegado.  Voc  um homem muito especial, Scott.
	Obrigado, minha querida.  Scott pegou a mo de Annette e a beijou.  Voc tambm  uma mulher muito
especial. Se a metade da humanidade tivesse o seu bom senso, garanto que todos ns viveramos muito melhor. E agora, vamos pedir um caf, a conta e continuar comemorando os seus vinte e cinco aninhos numa boate.
	Temos mesmo que fazer isso?  Annette perguntou.
	Com toda certeza.  Scott a fitou com muita ateno e disse:  As vezes tenho a sensao que sua idade intelectual est a anos luz da sua idade cronolgica.
	Ao entrar na boate, Annette levou um susto. Parecia que toda a juventude da ilha tinha resolvido marcar um encontro ali.
Enquanto procuravam uma mesa, Annette sentiu algo diferente, uma espcie de energia pesada, que comeou a incomod-la profundamente. E no demorou muito para entender o que estava acontecendo. Gergia Sanderson se encontrava na boate e a fitava de uma maneira bastante ostensiva, quase desafiadora.
E sem que Annette entendesse como, assim que se sentaram, Gergia, muito dona da situao, acompanhada por uma amiga de nome Penny Reiver, tambm sentava-se muito  vontade  mesa.
Annette percebeu que Scott no tinha gostado nada daquela invaso. Lucas, por sua vez, logo comeou a conversar com as duas moas.
"E por que no? Gergia e Penny so belssimas e qualquer homem se sentiria orgulhoso de t-las como companhia", Annette ponderou.
Porm, conforme o tempo foi passando, Annette comeou a se sentir muito constrangida com aquela situao. As duas moas se comportavam como se estivessem diante de um deus vivo e no sentiam o menor pudor em demonstrar o quanto Lucas as atraa.
	Acho que muitas mulheres tiveram a oportunidade de aprender a se expressar atravs de outra linguagem  Scott comentou em um dado momento , s no o fizeram porque  muito mais fcil representar o papel de idlatras.
Annette sorriu do comentrio do primo. De uma certa maneira ele tinha razo.
	Mas por que vocs resolveram vir para c hoje?  a ruiva perguntou.
	Primeiro ns fomos ao Jade Horse.
	 mesmo, Lucas? Que maravilha! Esto comemorando alguma coisa?
	O aniversrio de Annette  Lucas respondeu.
	E quantos anos voc est fazendo?  Gergia piscava muito ao falar.
	Vinte e cinco  Annette respondeu, de maneira seca.
	Vinte e cinco?  Gergia ficou espantada.  Pensei que fosse mais velha. Acho que  a sua altura que a faz parecer mais... madura.
Annette resolveu responder ao comentrio de Gergia como se tivesse sido um elogio.
	Fico muito feliz em parecer mais madura, obrigada.
A ruiva, que no esperava por aquele tipo de resposta, no soube o que dizer.
	Maturidade  um sinal de sabedoria  Scott desferiu. Afinal, no poderia perder aquela oportunidade de agredir um pouco Gergia Sanderson.
Gergia engoliu em seco. Em seguida, abriu um amplo sorriso e disse:
	Hoje, depois que cheguei do nosso passeio, resolvi ir dar um passeio pela cidade e me lembrei muito de voc, Annette.
	 mesmo? E por qu?
	As nativas dessa ilha so muito bonitas. Caminham com muita leveza e algumas delas tm quase a sua altura. A, eu pensei: Aqui, Annette deve se sentir mais  vontade. Pena que os homens no sejam to altos.
"Meu Deus, ser que  impossvel para as pessoas esquecerem que sou uma mulher alta? Ser que se esquecem que tambm tenho alma, crebro e um corao? Mas no vou falar nada sobre esse comentrio desastroso de Gergia. Isso s me faria sentir bem pior."
	Os homens daqui so conhecidos notadamente por sua esplndida compleio fsica, no pela altura  Lucas disse.
"Meu Deus, faa com que alguma coisa acontea para eu poder sair dessa mesa. No estou suportando ver a cara da Gergia na minha frente!"
Um homem se aproximou da mesa e se dirigiu a Scott. Em seguida ele se levantou e disse:
	Com licena, vou precisar conversar um pouco com o meu amigo aqui sobre trabalho.  E olhando para Annette, convidou:  No quer me acompanhar?
"Deus ouviu o meu pedido!"
Annette se levantou para acompanhar o primo. Antes que se afastasse, Lucas lhe perguntou:
	Voc gosta de danar?
	Gosto, sim.
	Ento, mais tarde, ns vamos danar.
	Tudo bem  Annette disse, como se aquilo fosse coisa mais natural do mundo.  Prometo no pisar nos seus ps.
Ao se afastar, ela se sentia bastante aturdida.
"Ser? Ser que vou conseguir danar com o Lucas? E bem capaz de eu comear a tremer sem parar."
Cerca de quarenta minutos mais tarde, Annette voltava com Scott para a mesa.
	Nem precisa se sentar  Lucas lhe recomendou.
	No entendi.  Ela ousou fitar a transparncia da quele olhar azul.
	Disse que no precisa nem se sentar.
	Por qu?  ela perguntou, meio desentendida.
	Porque voc prometeu danar comigo.
	Claro, havia me esquecido  ela mentiu. "Uma mentirinha de vez em quando, no faz mal a ningum."
Sob o olhar invejoso de Gergia, Lucas a levou at a pista de dana e comentou, ao ver que naquele momento mudavam o tipo de msica:
	Ainda bem. No tenho mais idade para ficar numa pista danando alucinadamente.  No instante seguinte, ele a abraava e seguia o ritmo lento de uma melodia muito romntica que havia se iniciado.
	No pensei que voc danasse to bem  ele comentou depois de alguns passos.
	Obrigada.
	Voc  uma mulher surpreendente, Annette.
	Por qu?    .
	Hoje em dia  muito difcil encontrar pessoas, sejam elas mulheres ou homens, que tenham ideias prprias.
	Na verdade, acredito que quando se trata de ideias, ningum hoje em dia consegue ser original.
	No?  Ele a fitou, espantado.
	No. Todas as ideias j foram exploradas e esto nos livros.
	Ser?
	Eu acho que sim.
	Voc  mesmo uma mulher surpreendente.  Ele sorriu.  Em tudo. Voc  uma mulher surpreendente em tudo.
"Ser? Ser que Lucas est flertando comigo?"
	Por qu?  ela quis saber.
	Quando a vi pela primeira vez, fiquei impressionado.
	Com a minha altura,  claro  ela se viu obrigada a dizer.
	Tambm, tambm com a sua altura. Eu a vi pela primeira vez nos Jogos Olmpicos, Annette. E disse a mim mesmo: as amazonas na certa eram assim.
	Mas elas, pelo que me consta, no eram muito femininas.
	A depende do que entendemos por feminilidade. Para mim, alm de uma coragem imensa, as amazonas eram tambm mulheres extremamente sensuais.
"Eu acho que ele est, sim, flertando comigo."
Lucas continuou:
	Quando a vi nas Olimpadas, fiquei impressionado com o seu corpo.
	Ele  grande demais, no ?  ela perguntou, com um n na garganta.
	Grande demais? Seu corpo para mim  perfeito, Annette. Seu corpo  incrivelmente lindo.
"Por que ser que ele resolveu mentir para mim?", ela se perguntava aflita.
	Ningum tem o corpo perfeito, Lucas.
	Mas o seu  perfeito. Acho que Deus, quando permitiu que viesse ao mundo, estava com mania de grandeza.
Annette no pde deixar de rir do comentrio dele.
Por no ter a menor ideia do que dizer numa situao como aquela, ela se manteve em silncio.
"Pela primeira vez algum faz um comentrio elogioso sobre o meu corpo. E, para esse tipo de comentrio, no tenho a menor noo do que dizer. Mas Lucas, acredito, s deve estar querendo ser gentil. Tambm, depois do comentrio que Gergia fez  mesa, ele deve ter se sentido na obrigao de me dar um certo apoio moral."
Os dois continuaram danando. E Annette, temia algum outro comentrio que Lucas viesse a fazer. Ainda mais se o comentrio fosse sobre sua aparncia fsica. Mas ele no disse mais nada. Apenas a acompanhou naquele silncio que ficava mais ntimo, a cada instante que passava.
"Por incrvel que possa parecer, nos braos de Lucas me sinto uma garotinha bem pequenininha. E no sei por que isso acontece. Ele, no mximo, deve ser uns cinco centmetros mais alto que eu. Como se me sentisse protegida por ele.  como se, nos braos de Lucas Tremaine, nada de mal pudesse me acontecer. E esse tipo de sentimento no  nada bom. Lucas  um homem que pertence ao mundo, a mulheres lindas como Gergia e Penny. Jamais se interessaria de verdade por uma desajeitada como eu. E qual homem, sobre a face da terra, se interessaria? Eu nasci para viver sozinha. Apesar de sempre ter querido casar, ter muitos filhos, eu nasci para viver sozinha. E tenho que me conformar com isso, no posso continuar sofrendo por ser uma mulher diferente das outras."
Mais uma vez naquela noite, Annette comeou a sentir uma energia estranha que parecia pesar sobre seus ombros e nuca. Ao olhar de lado, se deparou com o olhar invejoso de Gergia que danava com um rapaz bem mais novo que ela.
"Gergia daria tudo para estar no meu lugar. Mas tenho certeza que no fiz absolutamente nada para que Lucas me convidasse para danar. E no gosto desse tipo de energia negativa que ela comeou a emanar por causa do Lucas. Se est querendo alguma coisa com ele, Gergia deveria arrumar um jeito de lhe dizer. No quero continuar sendo anteparo das energias negativas de ningum."
	Vamos parar um pouco?  Annette pediu.
	J?
	Estou me sentindo um pouco cansada.
	Pensei que as amazonas jamais se cansassem. Elas estavam sempre bem-dispostas para as lutas.
	Acontece, Lucas, que no sou uma amazona.
	Tem certeza?  Ele a fitou intensamente.
"Nessa altura dos acontecimentos, com esses faris azuis a me espreitar, j no tenho certeza de mais nada. Como esse homem me deixa perturbada, meu Deus!"
	Vamos danar s mais um pouquinho, Annette? - ele pediu, com uma voz bem mansa.
	Tudo bem, vamos danar mais um pouquinho  Annette concordou.
Annette e Lucas voltaram para a mesa. Assim que se sentaram, ele pediu ao garom que lhe trouxesse vinho e um suco de laranja. A, olhou para ela e disse com muito interesse:
	Agora me conte.
	O qu?
	Me conte como  que se constri uma atleta olmpica.
Annette se sentiu bastante intimidada com aquele jeito direto dele.
	Isso  uma entrevista?
	De maneira alguma. Apenas interesse. S estou querendo conhec-la melhor. Mas me diga: como se constri uma atleta do seu nvel?
Ela deu um profundo suspiro e respondeu:
	Acho que voc usou o verbo correto: construir.  Annette parou para pensar na melhor reposta, mas ele se precipitou:
	Como ? No vai me contar?
	Bem, um atleta se constri com muito trabalho. E claro que a pessoa precisa ter uma compleio fsica dotada para o esporte. Mas sem muito trabalho no se consegue absolutamente nada. Muito trabalho, alimentao adequada, muito exerccio, concentrao e um excelente treinador.
	Voc deve ter sacrificado muito a sua vida pessoal para chegar onde chegou.
	E verdade.
	Mas como recompensa, voc obteve a fama. A fama  uma coisa boa, Annette?
	Olha s quem est me perguntando isso: o escritor mais conhecido no mundo de hoje.
Lucas ficou muito sem graa com a reposta dela.
	O que foi, Lucas? Disse algo errado?
	No, acontece que detesto a fama.
	Eu tambm no gosto da fama. Gostava, sim de competir. Nunca tinha pensado em me tornar uma mulher famosa. Apesar de ter muitas vantagens, a fama nos tira uma coisa essencial: a privacidade.
	E pensar que um sem-nmero de pessoas esto dis
postas a tudo para ter o seu momento de glria...
	O que me incomoda na fama  o fato de ser tratada como se fosse um ser de outro planeta. As pessoas vem os seus dolos de uma maneira pr-concebida. No sabem que temos as mesmas necessidades bsicas que as outras pessoas.
Os dois continuaram conversando, mas logo foram interrompidos por Gergia que voltou  mesa acompanhada pelo jovem com quem estava danando.
	Agora  a minha vez  a ruiva foi logo dizendo a Lucas.
	Sua vez de qu?
	De danar com voc.
Aps dar um olhadela para Annette, Lucas se levantou e levou Gergia para a pista.
O acompanhante de Gergia, ento, perguntou  Annette:
	Posso me sentar?
	Mas  claro que sim.
	Voc  Annette Carruthers, no ?
	Sou, sim.
	Meu Deus! Isso, sim,  que  sorte! Sou seu ia!  o rapaz disse com entusiasmo.  Sou o seu maior f!
O rapaz, que se chamava Willy, de uma maneira espontnea, comeou a conversar com Annette. E ela se divertiu muito com ele.
Quando o garom trouxe o vinho e o suco, Willy disse rindo:
	Sei que tenho a aparncia de um franguinho, mas no precisava ter pedido suco para mim.
	O suco foi pedido pelo Lucas. E ele  para mim. Eu raramente bebo.
	Era de se imaginar! Afinal, voc  Annette Carruthers! E eu? Posso tomar um pouco de vinho?
	Mas  claro que pode.
Ela e Willy continuaram conversando animados. Em um dado momento, ele disse:
	Depois dessa conversa com voc, vou me dedicar ao esporte com mais seriedade.
	E deveria se dedicar aos estudos com a mesma seriedade  a voz era de Lucas.  Annette, alm de uma campe olmpica  tambm fisioterapeuta.
	E mesmo?  Willy perguntou, olhando espantado para ela.
	 mesmo.
	Voc  mesmo uma mulher e tanto  Willy disse com estrema admirao.
	Eu tambm acho  Gergia concordou ao se sentar.
 Annette  uma mulher e tanto!
	Obrigada, Gergia  Annette agradeceu, mesmo sabendo que o elogio da ruiva no era sincero.
	Bem, queridinha, deveria ter me dito que hoje era o seu aniversrio.  Gergia, que tinha um pacotinho nas mos, o estendeu a ela.   para voc. Se tivesse me contado que era seu aniversrio, teria lhe comprado algo melhor. Como voc no disse nada e l na pista apareceu um rapaz vendendo...  A ruiva interrompeu a frase.  No vou dizer mais nada. No quero estragar a surpresa.
Annette abriu o embrulho. O presente que Gergia lhe dera era um colarzinho com contas de vidro, imitando as prolas negras, famosas naquela ilha.
	 lindo, Gergia, muito obrigada. No precisava ter se incomodado.
No foi incmodo nenhum. Por que no o coloca no pescoo?
	Mas  claro...
Para desgosto de Annette, o colar no lhe serviu.
	Me desculpe, queridinha, me esqueci que o pescoo de uma atleta  sempre mais grosso do que o das outras mulheres.
"Ela faz de tudo para me humilhar!"
	No tem importncia, eu o coloco no brao.
	Eu fao isso para voc.  Lucas que assitia  cena ainda de p, se sentou ao lado de Annette, tomou-lhe uma das mos e enrolou o colar no pulso.  Pronto!
	Viu s? Ficou perfeito!  Annette ergueu o brao e o mostrou  Gergia.
	E mesmo, ficou timo  a ruiva teve que concordar.
	E onde est o Scott?  Lucas quis saber.
	Deve estar conversando com algum conhecido. Meu primo adora um bom papo.
	Olha ele a!  Lucas apontou.
	Me desculpem, mas estava tratando de negcios.
	Sente-se  Lucas disse.  E v se agora sossega um pouco, homem. A vida no foi feita apenas para o trabalho.
	Infelizmente, no vai dar  ele olhou para o relgio de pulso , j  tarde. Vamos, priminha? Amanh logo cedo temos trabalho.
	Vamos, sim  Annette se levantou.
	Eu tambm j vou indo  Willy disse.
	Quer uma carona, rapaz?  Scott ofereceu.
	Muito obrigado, estou de carro.  Willy agradeceu o convite.  Mas vou sair com vocs.
	E voc, Lucas, vai ficar mais um pouco?
	Vou, sim.
Gergia lanou um olhar triunfante  Annette que, com muita educao, falou:
 Muito obrigada pelo presente.
	Bem, ento, boa noite. A gente se encontra por a, companheiro  Scott disse e os trs se afastaram.
	Com toda certeza.
Aps terem se despedido de Willy, Scott e Annette caminharam para o carro.
	Gostosa essa boate, no?  Scott perguntou.
	Ela  boa, sim.
	Quem no deve ter gostado muito do ambiente foi Gergia.
	Ser? Por qu?
	Com aquele jeito todo, ela deve preferir os lugares mais sofisticados. De preferncia, um lugar onde pudesse ficar a ss com o meu amigo Lucas.
Annette, mais uma vez resolveu ficar calada. Porm, j no carro, de volta para casa, comentou:
	Antes de ler os livros do Lucas, nunca tinha ouvido o sobrenome Tremaine antes. De onde  a famlia dele?
	Do sul da Nova Zelndia. O pai era um diplomata muito famoso, sir William Tremaine. Lucas foi criado em embaixadas por esse mundo de Deus. Mas, para fazer o curso secundrio, os pais dele o enviaram para uma escola em Christchurch. Lucas tambm ia seguir a carreira diplomtica e chegou at a se graduar em Oxford, mas, por alguma razo que desconheo, resolveu seguir a carreira jornalstica. Os pais no gostaram nada da deciso dele e ficaram anos sem falar com o filho. Mas isso no intimidou nem um pouco o meu amigo. Lucas nunca foi homem de se intimidar com nada. Bem, depois ele foi para San Rafael. O resto voc j sabe: a tragdia se abateu sobre ele.  Scott deu uma olhadinha para Annette e sorriu com afeto.
 O meu amigo sempre foi um grande sonhador. Para mim, nasceu na poca errada. Eu o vejo singrando os mares e descobrindo novos continentes... Confio muito nele. Mas, depois que a esposa morreu, algo mudou, ou morreu dentro dele. Parece que no liga para mais nada.
Annette e Scott logo comearam a conversar sobre outros assuntos. Ao chegarem em casa, o primo disse:
	Vou dormir. Estou me sentindo exausto. Tenha uma boa noite de sono, priminha.
	Voc tambm, priminho.
	Obrigado.
Annette antes de ir dormir, se dirigiu  cozinha e tomou um copo d'gua. Depois, foi para o quarto, se despiu, vestiu o pijama e se deitou.
Logo sem seguida estava dormindo. E comeou a ter um sonho: ansiosa, conduzia uma carruagem pelos campos da Inglaterra. Apesar de no saber para onde estava indo, era imperativo que chegasse ao seu destino. Naquele instante o sonho ficou muito confuso. A, ela se viu em p ao lado da carruagem e muito apavorada. De repente, uma mo forte segurou-lhe o pulso. O homem perguntou:
	E ento, minha senhora, que mensagem traz para mim?
Annette tentou falar, mas no conseguiu. Todas as palavras morriam em sua garganta, antes de serem proferidas.
	Como , linda mulher, no vai conversar comigo? Ser que se nega a conversar com um salteador?
Annette, recobrando a coragem que a abandonara, respondeu:
	O que poderia conversar com algum como voc?
	Poderia, por exemplo, pedir que a deixasse livre.
	E o senhor me deixaria livre?
	No, a senhora sabe que no.
O salteador, ento, a abraou e Annette, contrariando todas as expectativas, gostou de ser abraada.
	A senhora  minha, no se esquea disso. Minha, s minha. Agora, infelizmente, vou ter que deix-la ir. Mas voltaremos a nos encontrar quando eu estiver pronto.
O homem lhe deu as costas, montou num cavalo negro e, antes de ser envolvido pela escurido da noite, repetiu:
	Quando estiver pronto, eu voltarei.
Annette acordou respirando com muita dificuldade. E demorou um pouco para dar-se conta que se encontrava na casa de Scott.
	Meu Deus, eu estou chorando... Que sonho mais estranho. Aquele homem era... No, no pode ser!  Ela sentou-se na cama.  Tive o sonho mais explcito da minha vida. Qualquer um o decifraria com a maior tranquilidade.

CAPITULO IV

Na manh seguinte, Annette acordou com o toque do telefone. Logo em seguida, ouviu a voz preocupada do primo.
Ela esperou que Scott terminasse de conversar e foi para a sala. Ao ver o primo muito preocupado, perguntou:
	Algum problema, Scott?
	Um problemo: a me de Serena no est nada bem.
Preciso ir para Melbourne.
	Claro, claro... O que posso fazer para ajud-lo?
	Exatamente o que vem fazendo. Vou ligar para Lucas. Quero ver se ele pode ficar no meu lugar.
	O Lucas?  ela perguntou, num misto de espanto e medo.
	S ele pode me ajudar. Lucas  habilitado para pilotar barcos como o meu.  Scott pegou o telefone.  E muito cedo, mas vou ligar para ele agora.
Scott discou o nmero do hotel onde Lucas estava hospedado.
	Por favor, telefonista, quero falar com o sr. Lucas Tremaine.  Instante depois, Scott dizia:  Me desculpe por acord-lo to cedo, amigo, mas a situao  de emergncia.
Annette resolveu deixar o primo sozinho e foi tomar um banho. O sonho que havia tido logo que se deitara, no lhe saa da cabea.
"Foi um sonho muito, muito, estranho. No estou acostumada a ter sonhos desses tipos. Realmente fiquei muito impressionada com o carisma e a maneira de ser de Lucas Tremaine. Mas ele, pelo jeito, prefere mesmo as ruivas." Ela deu um profundo suspiro. "Mas por que, ento, se deu ao trabalho de ser to gentil comigo? Ser que sou uma mulher que inspira piedade a certos tipos de homem? No sei... acho que no. Mas algum motivo ele deve ter tido para se mostrar to atencioso. Teve um momento que achei, de fato, que estava tentando flertar comigo. Mas, se Lucas tivesse interessado em mim, na certa no terminaria a noite com Gergia. Bem, pelo menos, eu acho que no."
Annette terminou o banho, se vestiu e sentou-se na cama com o secador nas mos.
Ainda muito intrigada com o comportamento de Lucas, se fez a pergunta que, at aquele momento, estava evitando:
	Ser, ser que ele est tentando ganhar a minha confiana para depois querer me especular sobre o rapto da minha maior adversria s vsperas das Olimpadas?  Ela deu um profundo suspiro.  No, Lucas no pode estar fazendo isso. Mas, se estiver, ele tambm no passa de um grande oportunista!
Se esforando muito para no pensar mais em tal hiptese, secou os cabelos e foi para a cozinha.
	Tudo resolvido!  Scott parecia bem mais tranquilo.  Lucas vai me ajudar. E ele vai se hospedar aqui em casa.
	Aqui?  Annette perguntou, surpresa.  Por qu?
	No perguntei. Foi ele quem sugeriu ficar aqui. Algum problema para voc? No pensei que se importasse. Voc no gosta do Lucas?
	No  isso, Scott, mas viver na mesma casa que uma pessoa no  a mesma coisa que encontr-la socialmente.
	De fato  ele concordou.  Mas acho que vocs vo se dar bem. Lucas viveu muito tempo no iate. Ele  um homem muito prendado. Talvez, mais prendado que voc.
	Bem, seja l o que Deus quiser  ela disse com a voz trmula.
	Agora, priminha, vou fazer as minhas malas.
Assim que ficou sozinha na cozinha, Annette resolveu ligar para Serena pois sentia-se na obrigao de confortar um pouco a esposa do primo. Foi para a sala e ligou para o nmero que Serena havia deixado.
	Al.  A prpria Serena atendeu  chamada.
	Serena? Sou eu, Annette.
	Oh, minha querida, quanta gentileza me ligar. Como est voc?
	Bem, felizmente.  Annette, ento, lhe contou sobre os arranjos que tinham feito para poder continuar trabalhando.
	O que a gente faria, se no fossem os amigos?  Serena perguntou, agradecida.  Sei que no deveria ter pedido ao Scott para vir para c, mas estou precisando muito dele aqui comigo.
	No se preocupe com nada, querida. Tudo vai dar certo.
	No tenha tanta certeza assim.  Serena comeou a chorar.  Minha me est to doente...
	Tenha muita fora, Serena. Se Deus quiser, ela vai acabar se recuperando.
	Estou perdendo a esperana.
	Para Deus, minha querida, nada  impossvel. Agora voc precisa ficar tranquila e ter muita fora.
	Estou tentando, Annette, estou tentando... Mas no est nada fcil. Diga ao Lucas que estou agradecendo pela ajuda que vai nos dar.
	Eu direi.
	Vocs so pessoas muito especiais.
Annette e Serena continuaram conversando mais um pouco. Logo depois de Annette ter desligado o telefone, Scott entrou na sala e disse:
	Vou chamar um txi.  Ele fez a ligao e, em seguida, entregou uma lista  Annette.  A est escrito tudo o que precisa fazer e os cuidados que precisa tomar. Durante a viagem, vou pensar mais um pouco. Caso tenha esquecido algo, hoje  noite eu lhe telefono. As viagens tursticas que fizerem ficaro sob a responsabilidade do Lucas, por causa da habilitao que possui. Mas os ilhus que trabalham para mim conhecem muito bem o barco e sabem tudo sobre o mar. Portanto, pode confiar plenamente neles.
	Voc est muito ansioso, Scott.
	Numa situao como essa, no d para ficar calmo.
	Vamos at a cozinha. Vou lhe fazer um caf.
	Acho que no vai dar tempo. O txi deve estar chegando.
	Ento, vamos fazer o seguinte: voc toma um copo de suco e eu vou preparando o caf. Se ho der tempo, voc toma o caf l no aeroporto.
	Boa ideia.
Depois de meia hora que Scott tinha partido para o aeroporto, Annette resolveu sair para ir dar uma checada no equipamento de mergulho. Quando estava fechando a porta, um txi parou em frente  casa. Era Lucas Tremaine quem chegava. Imediatamente, o sonho lhe veio  cabea e seu corao, com uma taquicardia muito intensa, a lembrou do quanto a presena daquele homem lhe era perturbadora.
Parada junto  porta, ela esperava Lucas se aproximar.
	Bom dia, Lucas  ela disse.
	Bom dia. Tudo bem com voc?
	Felizmente, sim.
	J est indo trabalhar?
	Vou fazer a checagem dos equipamentos. Onde est a sua bagagem?
	Pedi que o hotel a entregasse hoje  tarde. Ns tambm temos que pegar os turistas?
	No, Ter faz isso. Dentro de dez minutos devemos encontr-lo no cais com a lista dos passageiros.
Lucas olhou para a mo de Annette e viu as chaves do carro. Imediatamente, estendeu a dele. Como ela resistisse em lhe entregar as chaves, comentou:
	Pensei que tivesse pressa.
	Raramente eu tenho pressa.
	Uma campe olmpica dizer que no tem pressa  algo muito estranho aos meus ouvidos.
	Aqui, sou apenas uma trabalhadora com outra qualquer. Mas se est querendo dirigir, sinta-se  vontade.  Ela lhe entregou as chaves.
Durante o trajeto at ao cais, os dois ficaram em silncio. Annette no tinha gostado do comentrio que Lucas havia feito.
"De repente, ele est se comportando como um homem qualquer. Ser que pensa que no dirijo bem e que no sei correr com um veculo? Os homens nunca perdem a oportunidade de reafirmarem a sua masculinidade. E eu que cheguei a pensar que Lucas Tremaine fosse diferente dos outros... No vai ser nada fcil conviver com ele. Ser que est tramando algo para me fazer a pergunta que na certa o interessa muito?
Lucas parou junto ao meio-fo, bem prximo ao local ond o barco se encontrava.
	Chegamos.  Ele a fitou intensamente e comento Voc est com uma expresso muito estranha.
	S estava pensando nas coisas que tenho de fazer Annette se viu obrigada a mentir.
	E mesmo?  Lucas perguntou, com uma certa ironia na voz e desligou o carro.  Por que ser, ento, que a sensao de no estar ao lado da mulher que conheci ontem no me abandona?
Annette pensou um pouco antes de responder:
	Acho que est equivocado.
	No, raramente me equivoco com coisas desses tipos.
	Est querendo dizer que conhece bem as mulheres?
	No, no estou querendo dizer que conheo bem as mulheres. Mas, se.quer mesmo saber, acredito conhecer muito bem o ser humano.
	Ser que no est sendo presunoso?
	Annette, a vida me ensinou a ficar atento a tudo o que acontece ao meu redor. Por isso, me tornei um escritor.
	Bem,  melhor ns descermos e entregarmos a lista dos turistas ao Ter.
	Isso  que eu chamo de uma sada estratgica! Mas vamos l: ao trabalho!
Uma hora mais tarde, o barco se preparava para deixar o cais.
Annette, ento, aps ter dado as instrues iniciais aos passageiros, passou a alert-los contra os perigos do sol. E, de uma maneira muito tranquila, retirou a camiseta e comeou a espalhar protetor solar pelo corpo.
Sob a camiseta, ela usava um biquini azul-royal. Acostumada a trajes de banho, no se deu conta que algum a espreitava. Porm, quando espalhava protetor pelas pernas viu que, prximo  cabine de comando, Lucas a observava.
"Por que ser que ele est me olhando dessa maneira? Bem, no d para eu ficar pensando no que passa pela cabea do sr. Lucas Tremaine. Tenho que realizar o meu trabalho. E bem."
O barco deixou o cais e, naquela manh, ningum caiu no mar. Quando j estavam navegando a uns dez minutos, Lucas se aproximou dela e disse:
	Voc deveria usar biquini o tempo todo, Annette.
	Eu uso biquini o tempo todo quando estou trabalhando.
	Mas ontem voc no tirou a camiseta, nem depois que se atirou ao mar para salvar a sua amiga.
	Acontece que ontem estava muito mais quente que hoje e preferi ficar de camiseta molhada para me refrescar. E Gergia no  minha amiga. S a conheci aqui em Fala'isi.
	Voc deve se orgulhar muito do corpo que tem.
"No acredito no que estou ouvindo! Passo a minha vida toda achando que sou um ser estranho, uma mulher totalmente inadequada para os padres atuais de feminilidade e, de repente, me aparece um maluco que resolve elogiar o meu corpo. E no  a primeira vez que Lucas faz isso. A vida, realmente, nos prega muitas surpresas!"
	No se orgulha do corpo que tem, Annette?
	Claro que sim!  "Dizer o qu, numa situao como essa? Que j chorei muito na vida por ser discriminada?"
	Hoje em dia as pessoas chegam numa certa idade e ficam desesperadas para conseguir um belo corpo. E, para isso, no medem esforos. Acontece que, na minha opinio, na maioria das vezes, elas no conseguem atingir o objetivo a que se propem. Um corpo bem-proporcionado  um trabalho para uma vida toda. E comea quando somos crianas. Quando voc comeou a praticar esporte?
	Desde muito cedo.
	Eu tinha certeza.
"Ser que agora ele est mesmo flertando comigo? Gostaria de ter mais um pouco de experincia com os homens."
	Bem, eu tenho que voltar para a cabine  ele disse.
Annette, ao ficar sozinha, no conseguia parar de pensar nas palavras que Lucas havia lhe dito.
"Ele estava falando seriamente. Pelo jeito, esse homem admira mesmo o meu corpo. E  muito esquisito conviver com algum que tenha um gosto como o dele. Durante a minha vida toda, acho que fiz de tudo para ignorar que tinha um corpo.  claro que me preocupava com ele, mas era algo profssional. Dele necessitava apenas para as minhas conquistas como atleta. De resto, acho mesmo que o ignorava."
Meio ressabiada, Annette baixou o olhar e contemplou o prprio corpo.
"... Na verdade  um belo corpo. Muito bem estruturado, msculos potentes, trabalhados. E foram anos e anos de muito esforo para que ele chegasse a ficar assim. Mas os homens no gostam de mulheres que sejam fisicamente mais altas e mais fortes que eles. No caso do Lucas, ele  bem mais forte que eu. Talvez, por isso, no se sinta ameaado por mim. Mas adoraria perguntar a ele o que acha do corpo de mulheres como a Gergia. A, sim, queria ver o que iria me responder!"
At chegarem no local onde aconteceria o mergulho, Lucas no se aproximou mais de Annette. Ela, por sua vez, conversou com alguns passageiros e tentou no pensar mais no que ele havia lhe dito.
Quando estavam prontos para mergulhar, Annette fez as ltimas recomendaes aos passageiros.
 Por favor, fiquem atentos  profundidade em que se encontram e tambm  quantidade de oxignio de que dispem. E como eu sempre digo: todo cuidado  pouco. E o senhor  ela se dirigia a um passageiro que portava um equipamento de filmagem muito sofisticado -, no se entusiasme muito com o que vai ver l embaixo. E muito fcil nos entusiasmarmos e nos esquecermos dos riscos que corremos. E, por favor, mantenha um olho no seu parceiro.
O homem, que era muito alto e tambm muito prepotente, respondeu:
	No sou um principiante e muito menos um imbecil. Tenho filmado incansavelmente mares pelo mundo todo. Portanto, no se preocupe comigo.
	Me desculpe, mas sou responsvel pelos senhores. E quero que sigam  risca as minhas instrues.
	Eu seguirei.  O cinegrafista deu uma risadinha.
	Otimo.  Annette tentava agir com tranquilidade.  Bem, o grupo mais experiente pode entrar na gua.
Quando o primeiro grupo j estava no mar, Annette disse para os novatos, que eram quatro:
	Bem, no se preocupem. Tudo vai dar certo. Estareil com vocs. Hoje tero momentos inesquecveis. O mar guarda segredos de rara beleza.
Quando Annette mergulhou, ela se sentiu muito bem. Era sempre muito bom estar sob a gua.
"Aqui embaixo  realmente incrvel. Se todos no mundo tivessem a oportunidade de mergulhar, com certeza passariam a ver a vida de uma outra forma. Mas no posso ficar aqui como simples expectadora de tanta beleza."
Com um movimento de corpo e de mos, Annette pediu que o grupo a seguisse. E mais uma vez ela se sentiu como se fosse uma galinha, seguida pelos filhotes.
O trabalho com os novatos no era nada fcil. Ela precisava ficar checando os medidores de oxignio o tempo todo, contando os mergulhadores, para ver se nenhum tinha se desgarrado do grupo.
"Tenho certeza que todos esto adorando o que esto vendo. Tambm, no  para menos. O banco de corais que temos aqui  belssimo. Olha! Olha que medusa linda!" Ela apontou o animal para o grupo. Em seguida foi a vez de um peixe, com cerca de um metro e meio, todo colorido.
As belezas do mar se sucediam ante os olhares atentos e ansiosos de todos.
"Bem, vou cont-los pela ltima vez e voltar para a superfcie, para o local onde Lucas ficou com o bote. Aps ter contado os mergulhadores, Annette sinalizou para que todos subissem.
Um a um, os mergulhadores foram subindo no bote. Annette foi a ltima a sair da gua.
	E como foi l embaixo?  Lucas quis saber.
	Fantstico, como sempre.  Ela balanou a cabea para se livrar da gua nos cabelos.
	E os outros mergulhadores?
	Logo eles estaro aqui.
Os quatro passageiros que tinham mergulhado com Annette, estavam entusiasmadssimos:
	Nunca pensei que fosse to maravilhoso  um deles disse.  Se der, amanh vou mergulhar de novo.
	Hoje mesmo vou comprar um livro que me explique direitinho sobre esses fantsticos animais e plantas que vivem no mar  uma moa comentou.
	E aquela medusa? Parecia uma danarina com um vu transparente.
Os comentrios se sucediam. Annette adorava aquela parte do trabalho. As vezes, ouvia dos mergulhadores comentrios inacreditveis, de muita sensibilidade.
	Os outros mergulhadores j eram para estar aqui  Lucas disse, preocupado.
	Voc tem razo. Olha l!  Ela apontou.  Chegou um. So cinco ao todo.
Depois do primeiro, mais trs mergulhadores chegaram  superfcie e foram para o bote.
	Est faltando o quinto  Annette disse.  E  o homem que estava com o equipamento de filmagem.
	E o Steve, eu sabia que ele no deveria ter mergulhado.
	Como  seu nome?  Annette quis saber.
	Fiona.  A mulher deu um profundo suspiro.  Ele bebeu muito ontem  noite.
	No acredito!  Lucas gritou.  Esse homem  irresponsvel!
	Vou ver se o encontro!  Mas ao checar o equipamento com o qual havia mergulhado, Annette viu que o oxignio estava quase no fim.  No  possvel! Algum problema deve ter acontecido. Eu deveria ter oxignio pelo menos para mais cinco minutos de mergulho. Mesmo assim, vou procur-lo.
	Voc no pode fazer isso, Annette.
	Posso, sim.
	De jeito nenhum. Ele deve estar a uma profundidade tal, que  impossvel ser alcanado com esse oxignio, e tambm deve ter se afastado do local demarcado para o mergulho.
	Mas no custa dar uma olhadinha.  Annette gulhou de novo no mar.
	Isso o que voc fez foi uma grande loucura!  Lucas a repreendeu, assim que ela voltou para o bote.  Confesso que, por instantes, tive a sensao que no fosse voltar mais.
	Tenho bons pulmes.
	Eu vi mesmo.
	Olha l!  Um dos mergulhadores apontou para um local fora da rea de mergulho.  Acho que o nosso espertinho est chegando.
	Graas a Deus!  Fiona disse, aliviada.
Quando Steve j estava dentro do barco, Lucas no se conteve:
	O senhor  um grande irresponsvel! Como pode ter ousado fazer uma coisa dessa?
	O que foi que eu fiz?  o mergulhador perguntou num tom irnico.
	O senhor desobedeceu as regras. E as regras foram feitas para serem obedecidas.
	Ou para serem desobedecidas!  O outro voltou a ironizar.
	O senhor cale a sua boca, ou eu o denuncio s autoridades da ilha. E sabe o que eles fazem com um mau elemento como o senhor? Priso! O senhor vai ficar preso at que o coloquem num avio!
S naquele momento o mergulhador pareceu ficar um pouco intimidado.
	Mas eu estava trabalhando.
	Aqui, o senhor tem que trabalhar com as nossas regras.
Garanto que, alm de sair do local permitido para o mergulho, tambm foi mais fundo do que deveria.
	Mas eu estava trabalhando  ele voltou a repetir.
	E o que acha que estamos fazendo aqui, hem? Brincando? Fique sabendo que todos os espertinhos que conheci, que agiam como o senhor age, hoje esto mortos!
No final da tarde, j em Fala'isi, sentado na areia com uma garrafa de gua mineral nas mos, Lucas perguntou  Annette:
	Voc tem pulmes?
	Mas  claro que tenho.  Ela riu.
	E brnquias? Voc tem brnquias?
	Trs pares dela: um par na nuca, outro na barriga e outro...
	No corao  ele a interrompeu e completou-lhe a frase.  E incrvel o seu flego, moa. Nunca vi algum ficar tanto tempo submerso.
	Digamos que fico submersa um pouquinho mais que a maioria das pessoas.
	Um pouquinho mais?  Ele riu.  Se me contassem que voc mergulha daquele jeito, no teria acreditado. E tudo para tentar salvar um cretino como aquele.
	Eu tinha que tentar.
	Tinha, eu sei que tinha. Mas aquele homem ultrapassou todos os limites do bom senso.
	E verdade.
	Quer um pouco de gua?
	Quero, sim.
Ele estendeu-lhe a garrafa e Annette tomou um gole de gua no gargalo.
	Mas o nosso maravilhoso mergulhador vai ter que arrumar um outro lugar para poder fazer as suas fantsticas filmagens.
	Como assim?  Ela entregou-lhe a garrafa.
	J entrei em contato com todos da ilha que fazem um servio como o nosso. Ningum vai aceit-lo como passageiro.
	Otimo que j fez isso. Era a primeira coisa que iria fazer quando chegssemos em casa.
	No d para aceitar tipos de pessoas como esse tal de Steve. Quem ele pensa que ? O dono do mundo? Ser que no tem a mnima noo que todos precisam obedecer as regras? Ser que ele se acha muito especial s porque carrega uma filmadora por todo canto que vai?
	Existem pessoas que no se preocupam com nada.
	Com nada e, principalmente, no se preocupam com a prpria vida. A, quando um acidente acontece, eles dizem, com a maior desfaatez: foi inevitvel. Existem, sim, coisas inevitveis, mas a maioria dos acidentes podem ser prevenidos. Se o ser humano no entender que  responsvel por todos os segundos que passa aqui, nisto, que j foi um lindo planeta, nada vai mudar. E guerra,  sangue,  desespero,  fome. E por que tudo isso? Na certa porque muita gente est achando que os acidentes so inevitveis.  Ele tomou um gole de gua. Annette, nunca o tinha visto falar tanto.
Existia revolta e desespero nas palavras de Lucas.
"Na certa est pensando no que aconteceu com a mulher dele."
	Viu s como ficou a Fiona? A mulher estava em pnico  Lucas continuou.  Garanto que, quando os dois estavam mergulhando, ela fez de tudo para que o nosso cinegrafista voltasse. Mas ele, que deve se achar um grande artista, no lhe deu a menor ateno.
	Pensei que, quando paramos para o churrasco voc fosse agredi-lo.
	E no o agredi por bem pouco. Ele bem que merecia uns belos tabefes. Imagina, depois de tudo, ainda quis me dizer que eu no tinha o menor direito de interferir na vida dele.
	Ele falou isso?
	Falou. E foi por isso que perdi o controle, coisa rara de acontecer. Ainda bem que voc apareceu e conseguiu contornar a situao. Se no tivesse aparecido, a coisa ia ficar muito feia. - Lucas balanou a cabea de um lado para o outro.  Sabe o que ele me disse?
	O qu?
	Que era um cinegrafista muito famoso.
	Verdade?  Annette no pde deixar de sorrir.
	Pode acreditar. E eu tenho l alguma coisa a ver com a fama dele? Ele que aproveite o dinheiro que a fama trs e consiga, por exemplo, um pouquinho mais de cultura e educao. Isso seria muito bom. Tem gente que acha que s porque  famoso, pode fazer o que bem entende. Hoje em dia, se ficarmos atentos, veremos que muito dos famosos no demonstram a menor qualidade naquilo que fazem: sejam os escritores, cantores, cinegrafistas, enfim...  Lucas deu um profundo suspiro.  Mas  assim que caminha a humanidade, no ? Acho que, hoje em dia, as pessoas se contentam com pouca coisa. E a fama  uma delas.
Os dois ficaram em silncio. Mas Lucas parecia disposto a continuar falando:
	Veja voc os ilhus com quem convivemos. So todos muito conscienciosos do que tm que fazer. E so extrema mente responsveis. E eles no esto preocupados com fama ou coisa do tipo, esto apenas preocupados em seguir os ensinamentos que receberam dos pais. A isso eu chamo de educao, de cultura. E no acredito que seja uma viso romntica da minha parte. J vivi muito, j convivi com toda espcie de gente e sei que o viver, realmente, est na simplicidade.
E eu no estou falando de subservincia, no. Estou falando de dignidade.
	Acho que voc tem toda razo  Annette estava impressionada com aquele desabafo.
	Bem, acho que j falei demais.
	Foi muito bom ouvir voc, Lucas. Acho corretssimo tudo o que falou.
	E muito bom saber disso.  Ele se levantou e mostrou-lhe a garrafa.  Estou pensando em comprar outra.
A gua desta aqui est no fim e continuo morrendo de sede. Voc me acompanha, ou me espera aqui?
	Eu acompanho voc.  Ela se levantou.
Num bar, prximo ao cais, Lucas comprou uma outra garrafa de gua e perguntou:
	Quer comer alguma coisa, Annette?
	Depois do almoo que tivemos? De jeito nenhum, estou sem fome.
	Eu tambm no estou com a menor fome.  Ele sorriu.  Ento, que tal dar uma volta pela praia?
	Prefiro ir para casa, Lucas. Estou muito cansada. O dia hoje foi muito estressante.
	Eu tambm estou me sentindo bastante cansado.

CAPITULO V

Assim que entraram em casa, Annette disse:  Vou preparar a cama do Scott e da Serena para voc.
	No se preocupe, estou acostumado a dormir dentro da minha mala. E por falar em malas, ainda no trouxeram a minha bagagem.
Naquele instante campainha tocou. Muito senhor da situao, Lucas foi atender a porta e voltou com a bagagem.
	Pronto  ele disse , agora j posso tomar um bom banho. Antes, porm, preciso fazer uns telefonemas. Se quiser tomar banho antes de mim, no tem problema. Acredito que meus telefonemas sero demorados.
	Certo. Mas no se preocupe: nesta casa tem dois banheiros.
Annette o deixou sozinho e foi para o quarto do primo. Aps ter trocado os lenis, pegou uma toalha e colocou aos ps da cama. Depois de tudo pronto, Annette, deu uma olhada pelo ambiente.
"Tudo muito bem cuidado mas, muito simples, se comparado ao hotel em que Lucas estava hospedado."
Annette olhou-se no espelho e no gostou da imagem que viu. O cabelo, por causa do sal estava muito grudado  cabea.
	Tambm estou precisando de um bom banho. Quando lavar bem a cabea e tirar o protetor solar do corpo, vou me sentir bem melhor.
Annette foi para o quarto, pegou o roupo e se dirigiu ao banheiro que ficava no corredor. Ao sair, j de banho tomado, deu de cara com Lucas.
	Nada como um bom banho, no ?
	A gente se sente bem melhor, sim.  Ela estava pouqussimo  vontade. Era muito difcil compartilhar tanta intimidade com um homem que havia conhecido no dia anterior.
	Bem, onde eu vou dormir?
	O seu quarto  aquele.  Ela apontou uma porta.  L tem um banheiro. Troquei os lenis e deixei uma toalha aos ps da cama para voc.
	Agradeo muito a sua ateno.  Lucas sorriu e Annette sentiu um friozinho percorrer-lhe o corpo.
J no quarto que ocupava, ela sentou-se na cama.
"Bem que eu poderia no ter me encontrado com ele no corredor. Esse roupo j est velho e..." Ela interrompeu o curso dos pensamentos e se perguntou baixinho:
- E quem disse que esse homem est preocupado com a roupa que voc usa para sair do banho? Garanto que para ele tanto faz voc usar um belssimo robe de seda, ou esse roupo de algodo preto j bastante descorado.
Annette deu um profundo suspiro.
"No gostaria estar pensando nessas coisas. Mas  inevitvel. Lucas mexe muito comigo. Tambm  inevitvel eu me lembrar o instante em que, l no barco, ele tirou a camiseta. Lucas tem um trax e tanto. A barriga dele, ento,  sensacional: achatada, com todos os msculos bem delineados. E as coxas..." Ela balanou a cabea, na tentativa de afastar aquelas imagens. "Pare com isso, Annette! Pare com isso, ou voc vai se dar muito mal! Lucas Tremaine, pelo jeito, gosta de voc; mas  s isso. Ele apenas gosta de voc."
	Acontece que ele  o tipo de homem pelo qual sempre me senti atrada.
Annette abriu a gaveta da cmoda e pegou um shorts e uma camiseta de algodo.
"Acho melhor usar aquele meu conjunto de camiso e bermuda de seda. Esse shorts e essa camiseta no me deixam l muito elegante."
Cinco minutos mais tarde, ela se olhava no espelho.
	Com toda certeza, esse conjunto me deixa bem mais apresentvel do que o shorts e a camiseta de algodo. Bem, agora preciso ir preparar alguma coisa para o jantar.
Ao passar pelo quarto que Lucas ocupava, Annette viu que ele ainda estava no banho.
"Realmente o Lucas nu deve ser algo inesquecvel!"
Ao se dar conta do tipo de pensamento que agora povoava-lhe a cabea, Annette sentiu que ficava vermelha.
"Assim no vai dar. Tenho que me controlar. O que  isso? Ser que estou ficando maluca? Nunca me comportei desse jeito!", ela se repreendeu. Naquele instante uma vo-zinha se fez ouvir dentro do seu crebro: "Mas antes voc tambm nunca tinha encontrado um homem com tantas qualidades como Lucas Tremaine!"
Na cozinha, meio trmula, Annette abriu a geladeira.
	Deveria ter trazido um peixe l da praia. Ficaria muito mais fcil preparar o jantar. Bem, a nica coisa que vou poder fazer  um risoto de camaro e uma salada. Mas no vou pr o arroz para cozinhar agora. Talvez ele queira comer mais tarde. O melhor  preparar um ch.
Annette colocou a gua para ferver e foi para a sala. L chegando, deu uma olhada nas estantes e ficou feliz quando encontrou os livros de Lucas. Pegou o ltimo que havia sido publicado e ficou olhando para a capa. Naquele instante, ela ouviu um barulho no corredor. Sem pensar, voltou a colocar o livro na estante.
Sentindo-se muito mal por ter se comportado com uma criana, se afastou da estante e foi ficar junto  janela.
"Que mal teria se o Lucas me pegasse com aquele livro nas mos? Nenhum! Nenhum mesmol Afinal, eles j foram publicados. Eu no estava fazendo nada errado."
Recm-barbeado, calas de brim, cabelos molhados, penteados para trs e com uma toalha sobre os ombros, Lucas entrou na sala.
"Vai ser muito difcil me controlar!"
	O que est fazendo? Apreciando a paisagem?
	...  ela titubeou.  A paisagem  muito bonita.
	Que tal sairmos para jantar?
	No sei, pensei em preparar algo para a gente comer aqui mesmo.
	No, depois de um dia de trabalho voc merece relaxar. Se for para a cozinha agora, isso no vai acontecer.
Annette, profundamente intimidada com a possibilidad de sair com Lucas, ao invs de ficar em casa e ir dorm' logo, procurava uma boa desculpa para no aceitar o convite
	Mas ontem eu j sa e...  ela se ouviu dizendo, mas foi interrompia por Lucas:
	Ontem foi ontem e j passou. Hoje  um novo dia Portanto, no aceito desculpas. Vou lev-la a um restaurante que gosto muito, no sei se voc o conhece.
	E qual restaurante  esse?
	O Samulele's.
"Meu Deus, esse  o restaurante mais caro dessa ilha!"
	E ento? O que achou da minha ideia?
	Acho que no tenho roupa para ir a esse restaurante.
	Mas  claro que tem! Essa que est usando, por exemplo.
"Um simples conjunto de camiso e bermuda de seda para o restaurante que uma importante revista inglesa classificou como o melhor do Pacfico Sul? Mas de maneira alguma!"
	Voc no iria conseguir uma mesa l  ela disse, e tinha sido a melhor maneira que havia encontrado para tentar dissuadi-lo de ir at ao Samulele's.
	Mas eu j consegui uma.
"Claro! Mas  claro que j conseguiu uma mesa l." .  
   Viu s como sou eficiente?
	... Eu estou vendo.
	Tenho certeza que vai gostar do restaurante, Annette.
	Acho que ningum no mundo no iria gostar de l.
	Fiz a reserva da mesa para daqui a uma hora. Achei melhor ir mais cedo para l. Afinal, ns dois estamos muito cansados.
	Mas a minha roupa no est nada adequada.
	Annette, o que  isso? Voc est tima. Animo, garota! A vida  muito curta para ficarmos nos preocupando com roupas.
Diante de tal argumento, ela s pde dizer:
	Bem, ainda temos um tempinho. Coloquei gua para ferver. Quer uma xcara de ch?
	Prefiro uma cerveja bem gelada.
O restaurante era mesmo muito sofisticado. As mesas, separaddas umas das outras por biombos, deixavam os frequentadores praticamente sozinhos.
	Sente-se  ele disse e, em seguida, puxou-lhe a cadeira.
Encantada com tanta gentileza, Annette sentou-se. Lucas tomou o seu lugar em frente a ela.
	O lugar  maravilhoso. Tudo aqui e muito bem decorado.
	 exatamente isso que o turista de grande poder aquisitivo gosta: ambiente tranquilo e muito conforto. Quando pela primeira vez estive nos trpicos fiquei um tanto frustrado.
	Achou que fosse encontrar lugares totalmente primitivos.
	Mais ou menos isso.  Ele sorriu.
	Agora j sei por que voc fica andando para cima e para baixo com o seu iate.
	Por qu?
	Para ver se encontra um lugar bem primitivo e extremamente paradisaco.
	Acertou em cheio. Tenho muito medo do que o homem est fazendo com o nosso planeta. O meu medo  que daqui a uns cem anos no sobre nada do pouco que restou.
	Acho que a humanidade est correndo este risco.
  incrvel como tudo est sendo destrudo muito rapidamente.  Ele olhou em volta.  Mas o destruidor tem, em lugares como esse aqui, todo o requinte que precisa para depois continuar destruindo.
	Voc  sempre assim to cnico, Lucas?
	Sempre. E no me venha com aquela histria que o cnico, no fundo,  um grande romntico. No sou romntico. Voc , Annette?
	O qu?
	Romntica. Estou querendo saber se voc  uma mulher romntica.
	No, acredito que no. Tendo ser prtica, manter os ps bem firmes no cho e fazer o que tem de ser feito.
	Mas voc me parece muito idealista.
	Por que est dizendo isso?  Ela o fitou espantada.
	Por causa dos seus dedos. Seus dedos so os de uma pessoa idealista.
	E sou mesmo. Mas desde quando os dedos revelam o carter de algum?
	E eles no revelam?
	Claro que no.
	Concordo com voc, estava apenas brincando. Mas existem algumas caractersticas fsicas que, para mim, falam muito sobre o jeito de ser de uma pessoa.
	Interessante. Me fale sobre isso. Estou curiosa.
	Bem, para mim, lbios carnudos indicam um temperamento sensual. Quando os lbios so mais finos, o temperamento sensual  menor. As pessoas grandes so desajeitadas. Pessoas que mantm os olhos meio fechados no so l muito dignas de confiana. E por a vai...
	Quer dizer, ento, que me acha uma pessoa desajeitada.
	De maneira alguma. Toda regra tem exceo, Annette. Voc  uma mulher muito elegante.
	Eu? Elegante? Voc s pode estar brincando comigo.
	No estou brincando, acredite.
	Voc  um homem grande e no  desajeitado.
	Voc e eu somos as excees que confirmam a regra.
	Ser?
	No que diz respeito a voc, tenho certeza absoluta. Mas sabe, Annette, adoro observar as caractersticas fsicas e a expresso corporal de uma pessoa.
Naquele instante o garom entrou no recinto onde os dois se encontravam e entregou a Lucas uma carta de vinho.
	Voc toma um vinho?  ele perguntou.
	No gosto de beber, Lucas.
	Um pouquinho de vinho no vai prejudicar a sua forma fsica.
	Bem, ento vou tomar s um pouquinho.
Lucas fez o pedido e os dois continuaram a conversar. A cada instante que passava, Annette se sentia mais e mais espantada com a inteligncia dele.
O garom voltou a entrar no local onde se encontravam e lhes serviu o vinho.
	Que tal?  ele quis saber, depois que Annette tomou um gole da bebida.
	Muito bom.
Eu sabia que iria gostar. A safra desse vinho  excelente.
Naquele instante, por sobre o biombo, Annette viu algo que no gostou.
"No acredito! No acredito mesmol Essa mulher deve estar nos perseguindo. Com tantos lugares para ir, Gergia tinha que vir justamente neste restaurante."
A ruiva que, ao passar, olhava para todos os compartimentos, parou sorridente ao ver Lucas.
	No acredito! Mas que grande coincidncia. Virando-se para a sua acompanhante, perguntou:  No acha, Penny?
E mesmo  a outra concordouuma grande coincidncia. Sem a menor cerimnia, Gergia adentrou ao pequeno recinto e disse:
	Penny e eu decidimos conhecer esse restaurante hoje.
 Dirigindo-se  Annette, continuou:  Ontem voc deve ter me achado uma grande idiota, no ?
	Imagina... Tem muita gente ainda, hoje em dia, que resiste em usar protetor solar.
	No  sobre isso que estou falando. A sua irm nunca me disse que tinha uma pessoa famosa na famlia. Alm disso, no ligo muito para o mundo dos esportes e nem leio jornais sensacionalistas.
Ao ouvir aquilo, Annette gelou.
	Gosto muito de nadar, de vez em quando, mas realmente no me interesso por esportes. Bem que eu vi que seu rosto me era familiar. A, hoje, encontrei com um dos passageiros que saram ontem conosco para passear e ele me contou quem realmente era voc: a famosa, Annette Carruthers!
	Nem to famosa assim, Annette. Lucas  muito mais famoso que eu.
	Lucas? Famoso?  A ruiva o fitou espantada.
	Vem me dizer que nunca ouviu falar do famoso escritor Lucas Tremaine?  Naquele momento, Annette sentia um grande prazer em provocar a outra.
	Meu Deus... Voc...
Antes que Annette fizesse qualquer tipo de comentrio, ele disse:
	S que no falo a respeito do meu trabalho. O que tenho para dizer est escrito nos livros.
	Claro, claro...  Gergia piscou vrias vezes.  Bem, foi um prazer reencontr-los. Tenham um bom jantar.
	Muito obrigado  Lucas respondeu de maneira seca.
	Vamos, Penny  A ruiva disse  amiga.  At outra hora, Annette.
: At outra hora, Gergia.
Assim que as duas saram, Lucas fez o pedido. Em seguida, virou-se para Annette e quis saber:
	Tudo bem com voc?
	Claro, estou muito bem.
	Ento me diga: como foi que resolveu estudar fisioterapia?
	Bem  Annette deu um profundo suspiro , minha av costumava ter muita dor nas costas e s encontrava alvio na fisioterapia. E  claro que, durante a minha vida toda de sportista, vi o quanto a fisioterapia pode ajudar uma pessoa.
	E como pode!  Lucas comentou.
	E est mesmo querendo se tornar uma fisioterapeuta? Para sempre?
	Acho que sim. Resolvi parar com o esporte. Mesmo tendo ganho uma medalha de ouro e batido um recorde mundial, sempre soube que esse tipo de vida no era para sempre. Um atleta, infelizmente, tem uma vida til curta. Depois, no d mais para competir. Isso que  a parte ruim do esporte. Depois de muito sucesso, s nos resta a solido. Hoje estou querendo ser apenas uma pessoa comum, no quero mais passar o tempo todo tentando superar a mim mesma.  Ela deu um leve suspiro e concluiu:  Sei que o meu treinador ficaria muito bravo se me ouvisse dizer tudo isso, mas  exatamente o que penso.
	Aquele escndalo do esteride teve algo a ver com a sua deciso de se retirar do cenrio esportivo?
"Esse homem sabe onde e como chegar onde lhe interessa." Apesar de se sentir frustrada, no dava para fugir  pergunta feita de maneira to direta.
	Um pouco  Annette, finalmente respondeu.
Mas no conseguiram provar nada contra voc. Todos os exames aos quais se submeteu demonstraram que nunca fez uso de esterides. Portanto as acusaes de Victoria Sutter foram totalmente improcedentes.
	Eu sei.
	E ela? Voc acredita que ela faz uso de esterides?
	Os exames dela tambm deram negativos.
	Mas isso parece que no a deixou muito convencida.
	Os exames dela tambm deram negativos  Annette voltou a repetir.  E tenho que me satisfazer com isso.
	Mas ela tambm disse que o rapto, na poca dos Jogos Olmpicos, foi feito a seu mando. Coisa que Victoria jamais conseguiu provar.
"Pronto. Pelo jeito o sr. Lucas Tremaine chegou exatamente aonde queria. Mas acho que devo falar exatamente o que aconteceu. No tenho nada a esconder."
	Suponho que as acusaes que Victoria fez pelo jornal a pegou totalmente de surpresa.
	Nem tanto.
	No?  Ele estava muito espantado.
	No primeiro dia dos jogos, ela me disse que, se eu a vencesse, iria ao jornal contar uma longa histria.
Na ocasio, acreditando que as palavras da colega no passassem de ameaas, e tanta fria fosse por causa do uso de esterides, Annette no deu a menor ateno a elas. No entanto, assim que os jogos tinham acabado, a ameaa se cumprira.
Annette nunca pensou que pudesse viver uma situao to srdida.
Perseguida pelos reprteres e pela polcia, havia lutado muito para salvar a reputao pela qual trabalhara a vida inteira. Depois, mesmo sabendo que sua atitude poderia ser mal interpretada, Annette havia deixado de competir.
	Pelo que sei, Victoria tambm nunca mais voltou a competir.
	No, no voltou. E no fao a menor ideia do que aconteceu com ela.
	E voc, pelo jeito, no se importa.
	Para ser absolutamente sincera, no.
	Foi ela mesma quem contou ao jornal que voc orga nizou o rapto?
	O jornal se recusou a informar quem tinha sido a fonte. Mesmo assim, depois, o jornal acabou se retratando.
	E ningum ficou preocupado quando ela desapareceu?
	Victoria, pelo que sei, j tinha sido raptada antes. Pelo menos foi isso que uma vez eu a ouvi dizer.
	Na ocasio, me sentia muito magoada com ela. Para mim, quanto menos eu a visse, melhor.
	Por que Victoria tinha tanta raiva de voc?
	Ela dizia que eu havia lhe roubado o patrocinador.
	E voc fez isso?
	No, mas  claro que no  Annette respondeu com firmeza.
	Me lembro que voc era patrocinada por um banco.
	Jamais tirei o patrocnio de ningum. No precisava disso.
	Tinha me esquecido que voc  uma grande herdeira.
	Meu pai, que  rico, sempre me sustentou. E minha av, me deixou uma herana ao morrer. Isso no faz de mim uma grande herdeira.
	Victoria deve sempre t-la considerado uma mulher muito rica.
	Ela conseguia patrocnio com a maior facilidade. Victoria sempre foi muito bonita, fotognica. Houve uma poca que cansou de receber propostas para comerciais, e coisas do gnero. Infelizmente, ela no conseguia enxergar que os patrocinadores querem atletas responsveis. Responsveis, bem-humorados e agradveis com o pblico e com a mdia. Aquela histria de comearem a cham-la de "A Vnus dos Mares do Sul", acabou subindo-lhe  cabea. Com o passar do tempo, Victoria se tornou uma pessoa muito arrogante
e a empresa que era sua patrocinadora principal, acabou desistindo de patrocin-la. Quando o banco me ofereceu patrocnio, eu no quis. Ento, os diretores da Associao dos Atletas insistiu para que aceitasse o patrocnio, pois eles precisavam de publicidade. A, eu resolvi aceitar. E dei todo o dinheiro que ganhei para a Associao.
	Victoria deve ter ficado desesperada com a sua atitude. O que ela fez?
	Me falou um monte de desaforos. Victoria era uma eglatra. Eu nunca quis fazer mal a ningum. S queria fazer o meu trabalho bem feito.
Naquele instante, para a felicidade de Annette, o garom chegou com o jantar. 
Enquanto eram servidos, Annette se perguntava: "Como fui capaz de contar tudo isso a ele? Apesar de o meu treinador ter me ajudado muito a conviver com a parania da Victoria, s o meu pai ficou sabendo de tantos detalhes sobre o que aconteceu comigo." De repente, Annette resolveu perguntar:
	Por que est to interessado nessa histria?
	Por curiosidade, apenas. Acompanhei tudo o que aconteceu. E gostei quando obrigou aquele jornaleco ingls a se retratar. Gostei tambm do apoio que o seu pai lhe deu.
	Ele sempre acreditou em mim. Mas mesmo com todo apoio do meu pai e com a retratao do jornal, Victoria acabou vencendo, acabou conseguindo o que queria.
	Por qu?
	J ouviu um ditado que diz: Onde tem fumaa, tem fogo? Pois  isso que ficou para o grande pblico. Na certa tem muita gente ainda acreditando que sou culpada.
	Mas hoje Victoria est totalmente esquecida. E voc, pelo que posso ver, est forte, saudvel, feliz e tem uma carreira promissora.
Annette sentiu um certo cinismo nas palavras de Lucas. Em silncio, comeou a comer. Depois de alguns minutos, achando que deveria continuar com a conversa, disse:
	No sou mulher de viver das glrias do passado!
	Mas o passado ainda continua magoando muito voc.
	E podia ser diferente? Acho isso muito natural. O momento mais sagrado, pelo qual lutei tanto, foi maculado por mentiras. E perdi a coisa mais importante para mim: a minha reputao.  Ela o encarou e perguntou:  Voc no acredita em mim, no ? Acha que, no fundo, sou culpada?
	Uma vez li uma entrevista onde voc dizia que a coisa mais importante da sua vida era conseguir aquela medalha.
	Disse apenas a verdade. Trabalhei duro para me tornar uma campe olmpica.
Lucas, ao invs de fazer qualquer comentrio, ficou em silncio. E os dois, comendo, continuaram assim por um longo tempo.
"Ele no acredita em mim. Tenho certeza que acredita que sou culpada. E  to importante para mim que Lucas acredite na minha inocncia. No sei o porqu, mas  muito importante, sim, que Lucas acredite em mim!"
	Sobre o qu voc est pensando?
Ele sorriu e respondeu:
	Estava pensando que fora de vontade e determinao so qualidades muito importantes. Mas elas tambm podem ser muito perigosas.
	A vida  muito perigosa.
	E verdade.  Lucas voltou a sorrir.  Voc, Annette,  uma mulher muito durona.
	Voc j me disse isso uma vez e eu no gostei.
	Voc, Annette,  uma mulher de fibra. Melhorou?
	Melhorou. Acho a palavra durona muito pesada.
	Voc tem razo. No tem medo das emoes, Annette?
	As emoes podem ficar sob controle.
	At uma grande paixo pode ficar sob controle?
	No, eu acredito que no.
Sem entender o porqu, Annette se lembrou do presente que Olvia lhe dera.
	Quer dizer, ento, que acredita que existem sentimentos que no podem ficar sob controle?
	Acredito, sim.
	Voc  uma mulher muito sincera.
	Procuro sempre ser sincera, Lucas. Detesto dissimulaes e fingimentos.
	Isso  muito bom. Mas me diga: acredita que a infelicidade pode ser um carter herdado geneticamente?
	O qu?  Ela riu da pergunta.
	As vezes fico me perguntando exatamente isso: ser que a infelicidade no pode ser algo herdado dos pais, assim como a cor dos olhos, dos cabelos etc?
Durante o resto do jantar os dois ficaram conversando sobre aquele assunto. E Annette se surpreendeu com o grande conhecimento cientfico demonstrado por Lucas.

CAPITULO VI

Depois de muito filosofar e discutir sobre teorias cientficas, Lucas pediu a conta. Annette, ento, pediu licena a Lucas e foi at ao banheiro. Quando j estava para sair, ouviu a voz inconfundvel de Gergia.
	Ela  uma grande safada! Fica fazendo cara de sonsa, mas est a fim de fisgar o Lucas.
Annette, ento, muito constrangida, resolveu permanecer no cubculo em que se encontrava. "Meu Deus, no merecia ouvir isso!"
	Voc viu s a maneira que ela fala?
	Talvez ele apenas esteja com pena dela.  A voz agora era de Penny.
	Vai entender os homens! O que ser que o Lucas viu naquela gorda?
	Gorda?  Penny caiu na risada.  Voc est com muita inveja, Gergia. Ela pode ser tudo, menos gorda!
	No me conformo. No me conformo mesmo com o que est acontecendo. Ser que aquela mulher no tem senso de ridculo?
	Voc est mesmo com muita raiva dela.
	E no  para estar? Quem ela pensa que ? S porque ganhou uma medalha de ouro no pode se achar superior a ningum. E o olhar dela, ento? No gosto daquele olhar. Ele me faz lembrar de uma das mulheres que tomava conta do ptio da escola onde estudei. Um olhar falso!  isso que ela tem: um olhar falso! Antes de partirmos, vejam se todas as partes expostas do corpo de vocs esto cobertas por protetor solar, Gergia imitou a voz de Annette. Ser que aquela mulher no se enxerga, no?
Mais uma vez Penny deu uma risada e a ruiva continuou falando barbaridades sobre Annette que, ainda dentro do banheiro, humilhada, sentia uma vontade imensa de chorar.
	Ela trata a gente com tanto desdm porque  alta e muito forte. Mas deve morrer de inveja de mulheres como ns que temos estatura normal e somos muito atraentes para os homens.
	Voc acha mesmo que ela participou do rapto daquela moa?  Penny quis saber.
	E voc ainda duvida?
	Mas no ficou provado nada contra ela.
	E precisa? Por que a outra precisaria inventar uma histria dessa? No d para confiar em esportistas deste nvel. Elas treinam desesperadamente e fazem qualquer coisa s para conseguir uma medalha.
	E junto com a medalha vem a fama. E, com a fama, muito dinheiro.  Penny fez uma pausa e depois continuou:
 Ela doou o dinheiro que recebeu daquele jornal que se retratou.
	Viu s como ela  boazinha? Alm de sonsa  boazinha.
As duas ficaram em silncio. Annette, inconformada com o que ouvia, tentava relaxar e quase gritou de susto quando Gergia voltou a falar.
	Bem, na minha opinio, a dona Annette tem toda culpa do mundo. Mas ela deve se achar acima do bem e do mal.
	E o que ser que aconteceu com a outra atleta depois de tudo? Qual era mesmo o nome dela? Victoria...  Penny fez um pausa.  No consigo me lembrar do sobrenome da moa.
	No sei o que aconteceu com a outra.
	Me parece que recentemente vi um artigo que falava qualquer coisa sobre a essa Victoria. Me parece que comeou a se drogar e mora em algum lugar de Londres.
	Para voc ver, minha amiga, quando se trata de Annette Carruthers todo cuidado  pouco.
Depois de tecerem mais algumas consideraes maldosas a respeito de Annette, as duas foram embora.
"Que coisa mais terrvel.  isso que todos pensam a meu respeito. No adiantou eu me defender, no adiantou o jornal se retratar, no adiantou as entrevistas, as reportagens. Para sempre vou continuar sendo a mulher sem carter, a pessoa que faz qualquer coisa s para conseguir o que quer. E eu sou inocente. A nica coisa que fiz para ganhar a medalha e marcar o recorde mundial foi trabalhar duro, sem descanso."
Annette, finalmente saiu do banheiro e foi lavar as mos. Ao ver sua imagem refletida no espelho, disse baixinho:
	Estou com uma aparncia pssima. O que acabei de ouvir vai ser muito difcil de ser esquecido. Gergia Sanderson me odeia.
Ao chegar diante da mesa, Lucas a recebeu com um sorriso.
	Sente-se, Annette. Acabei de pedir um caf.
Ela sentou-se e ficou calada.
	O que aconteceu?  ele quis saber.
	Nada. Apenas estou um pouco cansada.
	D para se notar. Bem, a gente toma o caf e vai direto para casa. Certo?
	Certo.
Annette bebeu o caf automaticamente.
	Vamos  Lucas se levantou.
Annette o seguiu e logo caminhavam sob um cu de estrelas, a caminho do carro.
"Eu deveria estar bem longe daqui. Deveria estar num lugar onde ningum me conhecesse, onde no soubessem quem eu sou. Ao invs disso, estou num lugar onde no passo despercebida, ao lado de um homem que tem pena de mim. E o duro, o difcil nisso tudo,  saber que estou comeando a me envolver com o Lucas. No final desta histria toda, estarei me sentindo derrotada. Derrotada e com-pletamente infeliz. Por que tive que vir a esse restaurante? E por que tive que ir ao banheiro? Por que precisei ouvir aquilo tudo? Se tivesse ficado em casa, como pretendia, nada disso teria acontecido e eu j estaria dormindo."
	Cuidado!  Lucas gritou e a puxou pelo brao.  No mesmo instante, um nibus carregado de turistas, que saa estacionamento do restaurante, passou por eles.  Voc quase foi atropelada.
	Me... me desculpe.
	O que est acontecendo com voc? Ser que ficou maluca?
	Eu no vi o nibus, Lucas.
	Pois deveria ter visto.  Ele estava muito aflito.  J pensou? Eu... Voc poderia ter morrido!
	Acho que o mundo no ia perder muita coisa se eu morresse.
	O que est acontecendo agora? Resolveu ter uma crise de autopiedade?  Ele a segurou pelos braos. 
	No, o que estou tendo agora  uma crise de lucidez.
	Alguma coisa aconteceu. Voc estava tima quando foi ao banheiro e, quando voltou...
	Por favor, solte os meus braos. "Ou vou acabar tendo uma crise de choro", ela teve vontade de dizer.
	Voc  uma mulher fantstica, Annette.
	Fantstica, alta, desajeitada e tudo o mais que voc quiser.
	No fale assim. Voc tem que se enxergar exatamente do jeito que !
	E como eu sou, hem?
	Uma mulher mais alta do que a grande maioria, mas muito bonita.
	Chega de piedade, Lucas. No preciso dela!
	Piedade? Voc acha que eu sinto piedade por voc? Pois saiba, Annette Carruthers, que eu a admiro profundamente.
	O que quer que eu escreva no autgrafo?  ela ironizou.  Com carinho, o meu f Lucas Tremaine?  isso que quer que eu escreva no autgrafo?  Ela fez um movimento e se livrou das mos fortes.  Chega de conversa fiada. Quero ir para casa.
Durante o trajeto at em casa, Annette fez questo de no dizer nada. 
Scott tinha deixado uma curta mensagem na secretria eletrnica: a me de Serena tinha tido um ligeira melhora, mas a situao era ainda muito delicada. Scott terminava a mensagem, dizendo:
	Nada  mais importante que os amigos.
	 verdade  Lucas comentou , nada  mais importante que os amigos.
	Bem, boa noite  Annette disse e se retirou para o quarto. L chegando, sentou-se na cama e ficou pensando na conversa que ouvira entre Gergia e Penny.
"Gergia  uma mulher muito cruel. No precisava ter falado aquilo tudo de mim. Ela no me conhece. At posso entender que esteja com muita raiva por causa da minha relao com o Lucas, mas ningum pode destruir a imagem de uma outra pessoa apenas por cimes. E ela disse muitas mentiras. Nunca fiz nada contra Victoria. Nunca. Imagine se iria mandar rapt-la por causa de uma medalha. E o Lucas? Ser que ele acredita mesmo que eu seja culpada?"
Annette se levantou e foi para junto da janela.
"A noite est maravilhosa. Como tem estrelas no cu. E eu aqui, deprimida. Deprimida e sozinha. No posso nem sequer pensar em sonhar que Lucas se interesse um pouco por mim. E mesmo se ele se interessasse um pouquinho, no seria o bastante. Preciso de um companheiro, algum com quem possa compartilhar a vida, as alegrias e tristezas, e no de um caso passageiro.
Annette andou devagar at o outro lado do quarto e abriu a gaveta onde havia guardado o presente que Olvia lhe dera. Com cuidado, pegou o pequeno porta-retrato nas mos e disse para aquela figura de mulher:
	Adoraria saber quem foi voc. E estou certa de que jamais soube o quanto di a solido, mesmo porque voc no deve ter tido qualquer tipo de problema amoroso. Os homens, na certa, caam aos seus ps, fascinados por tanta beleza...
Annette ficou, ento, fitando aquela mulher por longos minutos. Depois, voltou a colocar o porta-retrato dentro da gaveta e foi se deitar.
Para surpresa de Annette, os dias que se seguiram foram muito tranquilos. Ela e Lucas trabalhavam muito bem juntos. Mas isso no deveria ter sido surpresa para Annette. Afinal, sempre trabalhara muito bem com qualquer pessoa. 
A tripulao do barco tambm logo havia se adaptado ao comando de Lucas e o aceitara sem o menor problema.
Mas para Annette, apesar da tranquilidade, algo dentro do seu peito a incomodava mais e mais: a atrao fsica que sentia por Lucas. E lutou contra ela. Lutou muito. Depois de alguns dias, chegou a acreditar que a atrao tinha acabado e comeou a trat-lo com a um velho companheiro. Porm, quando durante as viagens as mulheres o assediavam, Annette sentia-se pssima.
Num final de tarde, quando os dois se aproximavam do carro para voltar para casa, Lucas pediu:
	Daria para voc ir dirigindo?
	Mas  claro que sim.  Annette respondeu e foi sentar-se ao volante. E esperou que ele se sentasse para perguntar:  O que aconteceu?
	Estou com um" probleminha no meu ombro. Mas no me parece grave. Nada que um bom descanso no cure. Amanh cedo estarei novinho em folha. Deve ter sido apenas uma distenso muscular.
	E como aconteceu isso?  Annette ligou o carro e partiu.
	O ombro comeou a doer quando fui ajudar aquele homem um pouco mais gordo sair da gua.
	Eu vi que voc fez uma careta, mas pensei que tivesse sido uma dorzinha momentnea.
	Eu tambm.
	Essas distenses so terrveis.
	Voc deve ter muita experincia com elas.
	Bastante.
Ao chegar em casa, Lucas disse:
	Gostaria muito de sair para jantar fora hoje mas, infelizmente, no vai dar.
	Voc sabe que eu prefiro jantar em casa.  Desde a noite que tinham ido ao Samulele's, Annette nunca mais aceitara um convite para jantar fora.
	Eu sei disso, mas hoje no vou poder ajud-la com o jantar.
	No tem a menor importncia. Vou fazer aquele peixe que compramos ontem  tarde.
	Perfeito.
	V tomar um banho, Lucas, e depois descanse um pouco. Quando o jantar estiver pronto eu chamo voc.
	Tem certeza que no se importa em fazer tudo sozinha?
	Tenho, tenho, sim.  Ela sorriu e Lucas foi para o quarto.
Annette, ento, temperou o peixe, colocou-o no forno e tambm foi tomar banho. Depois de pronta, voltou  cozinha e terminou de fazer o jantar. Em seguida, foi at o quarto que Lucas ocupava e o chamou.
	O cheirinho est delicioso  ele disse, assim que se sentou  mesa.
	Espero que o sabor do peixe tambm esteja bom.
	Tenho certeza que est. Voc  uma excelente cozinheira.
	Quer que eu o sirva, Lucas?
	Por favor, faa isso.
	Vai comer a salada antes?
	Vou, sim.
Ela lhe serviu uma boa poro de salada.
	O que foi que voc colocou nela?  Lucas quis saber depois de ter levado a salada  boca.
	Nozes. Nozes e um pouquinho de organo.
	Est um delcia. Voc j pode se casar, Annette  ele disse, num tom de brincadeira.
	Com toda certeza.  Ela entrou na brincadeira, apesar de ficar um tanto intimidada.
A, para disfarar o que estava sentindo, Annette comeou a comentar o dia que haviam tido.
No final do jantar, Lucas disse, satisfeito:
	Realmente voc  uma excelente cozinheira. Sua co mida no fica nada a dever ao Samulele's.
	E voc quer que eu acredite nisso?  Ela se levantou e comeou a levar a loua para a pia.
	Eu ajudo voc.
	De jeito nenhum. Poupe o seu ombro.
Os dois continuaram conversando. Ao terminar de lavar a loua, Annette ofereceu:
	Quer que eu faa uma massagem no seu ombro? Talvez eu consiga alivi-lo um pouco.
	Voc me faria esse favor?
Mas  claro que sim. S que acho melhor fazer a massagem um pouco antes de voc dormir.
	Tudo bem. Vou l para a sala ler um pouco.
	Certo.
Enquanto Lucas lia na sala, Annette foi at o quarto e, de dentro da mala, retirou um frasco de um leo especial para massagem. Depois, pegou um livro para ler e sentou-se numa poltrona. Mas ela no conseguiu passar da primeira pgina. A imagem de Lucas bailava-lhe diante dos olhos. E Annette comeou a lembrar todos os instantes que havia passado com ele.
"Isso no pode continuar assim. Estava achando que tinha conseguido superar a atrao que sentia por Lucas."
E as imagens continuaram a se suceder, uma a uma.
"Assim no vai dar para continuar mesmol"
Ela se levantou, "guardou o livro e foi para a sala de televiso. E durante mais de uma hora ficou assistindo a um documentrio sobre os perigos da energia nuclear.
Quando o documentrio terminou, Annette estava se sentindo emocionalmente pssima.
"Quando  que o homem vai aprender a respeitar tudo que o cerca? Nunca! Eu acho que nunca!"
	E ento?  ela perguntou ao entrar na sala.  Quer fazer a massagem agora?
	Quero, sim.  Ele a fitou e perguntou:  O que aconteceu? Voc andou chorando?
	Um pouco.
	Por qu?>
	Estava vendo um documentrio sobre os perigos da energia nuclear e fiquei horrorizada.
	No  para menos.  Ele deu um profundo suspiro.  Quem sabe, um dia, o homem acorda desse sono eterno de ignorncia que se imps.
	Quem sabe...  Ela olhou para o ombro dele.  E a dor?
	Parece que melhorou um pouco.
	Se no quiser fazer a massagem...
	Mas  claro que quero. Afinal, vou entregar os meus ombros nas mos de uma especialista. Vai fazer a massagem aqui mesmo?
	No,  melhor que voc se deite.
	Na cama, ento?
	No, a cama  muito macia. Voc tem que se deitar sobre uma superfcie mais dura. O ideal seria uma mesa, mas voc  grande demais.
	At para isso ns temos problemas.
	Para voc ver.  Ela sorriu de maneira tmida.  O melhor  se deitar no cho. Mas antes, quero ver se arrumo um lenol velho.
	Para qu?
	Para estender no cho, ora! Vou fazer a massagem com um leo especial que trouxe comigo. No quero sujar o cho.
	Entendi...
	A Serena deve ter algum lenol velho dentro do guarda-roupa.
	Com certeza. Mas se eu me deitar no cho, voc vai acabar machucando os joelhos.
	Eu uso uma almofada.
Annette, muito mais tensa do que em qualquer competio que j havia participado, olhava para as costas de Lucas.
"No posso continuar desse jeito. Tenho de me concentrar e me comportar como uma profissional!", ela se recomendava em pensamento.
	Respire  ela disse.  E tente relaxar.
	Certo.
Lucas fechou os olhos e comeou a respirar lentamente.
"Ele  to lindo, to lindo... Ser? Ser que vou ser capaz de alivi-lo um pouco da dor? Tensa do jeito que estou, eu, sim,  que preciso de uma massagem. Mas vamos l! Tenho que conseguir!"
Annette abriu o frasco e espalhou um pouco de leo nas mos. Em seguida, comeou a massagear o ombro que no estava dolorido.
	Mantenha-se concentrado  ela disse baixinho.  E continue respirando bem devagar.
"Nunca pensei que fosse to difcil toc-lo. Nunca pensei que..." Ela inspirou profundamente e se recomendou: "Se nunca pensou, moa, no pense agora! Tudo o que tem a fazer  continuar com a massagem. Comporte-se como se ele fosse um paciente qualquer!"
Annette continuou com seu trabalho.
"Mas acontece que ele no  um paciente qualquer. E ele nem  meu paciente!"
	Voc est com um ponto de tenso bem grande entre os ombros  ela disse.
	Eu posso sentir.
S depois de massagear bem o ponto de tenso, ela passou a trabalhar no ombro dolorido, com extremo cuidado. E Annette j no se recriminava mais pela a atrao que continuava sentindo por Lucas:
"Infelizmente j lutei, mas vejo que no posso fazer mais nada sobre isso. A atro existe e no d para arranc-la de dentro de mim. O duro  se eu acabar me apaixonando por esse homem..."
A vozinha dentro do seu crebro logo perguntou:
"Acabar se apaixonando? Voc j est perdidamente apaixonada por ele, Annette Carruthers. Enfrente a realidade de uma vez por todas!"
"Meu Deus...  isso.  exatamente isso o que est acontecendo comigo: eu me apaixonei por Lucas. E agora? O que eu fao da minha vida?"
Num esforo imenso, ela continuou mais um pouco com a massagem. A, ento, disse:
	Pronto. Terminou.
	J?  Ele, ento, abriu os olhos. - Mas estava to gostoso. Ser que no d para voc massagear um pouco a minha nuca? Estou sentindo que ela tambm est muito tensa.
- A nuca?  "E agora", a vozinha lhe perguntou. "Vai fugir?"
	Continue, ento, relaxado. E tambm continue respirando com tranquilidade. Vou trabalhar um pouco a sua nuca.  Annette colocou mais leo nas mo e, como num ritual, esfregou uma na outra. Em seguida, comeou a massagear-lhe a nuca. Mais que nunca, Annette fez de tudo para manter-se distante, como se estivesse tratando de um desconhecido. Alguns minutos depois, ela disse:
	Pronto. Acho que vai se sentir melhor.
Lucas virou-se de costas e a fitou intensamente.
	Suas mos so mgicas, Annette.
	Obrigada.
Ele mexeu de leve o ombro dolorido e constatou:
	No estou mais sentindo dor.
	Isso  muito bom.  Ela estava muito sem graa.
	Bom, muito bom  ter voc aqui ao meu lado.  Ele a segurou pelos braos e a puxou para junto de si.
Quando Annette se deu conta do que estava acontecendo, Lucas a beijava.
Annette j tinha sido beijada por Mark, tambm tinha feito amor com o ex-noivo por inmeras vezes. Mas nada, nada se comparava ao que sentia naquele momento. Parecia que, de repente, tinha achado o lugar onde sempre deveria estar: nos braos de Lucas Tremaine.
	Voc beija de uma maneira doce, quase infantil.
	Isso  um elogio?  ela perguntou, meio ressabiada.
	Mas  claro que  um elogio.  Lucas acariciava-lhe o rosto de leve.  E voc tem olhos lindos, Annette. Muito lindos. Foi uma das primeiras coisas que notei em voc. Parecem dois lagos escuros que guardam todos os segredos do mundo. E sempre soube que escondiam um mulher vibrante, que faz de tudo para se controlar.
Acariciando-a de maneira mais ousada, Lucas voltou a beij-la.
De repente, ele a afastou de si com delicadeza e disse:
	Acho que estamos cometendo um erro.
S ento ela pareceu acordar para a realidade que vivia e respondeu, de maneira seca:
	Tem toda razo.
Annette, se sentindo completamente insegura, lembrou-se do que tinha acontecido dois meses antes das Olimpadas: Mark, sem mais nem menos, havia lhe dito que no a queria mais. Havia lhe dito que, sim, gostava dela, mas no a amava. E Annette no queria voltar a ser humilhada, no por Lucas.
	Voc ficou triste  ele constatou.
	Eu? Triste? Imagine...  Annette, para se proteger, sorriu de maneira falsa.  Aconteceu, e pronto!
	Voc est falando de uma maneira muito fria.
	 impresso sua.
	Ser?
	Existem situaes e circunstncias que a gente no  capaz de controlar.  Ela se levantou e mudou totalmente de assunto:  E o brao?
	No senti mais nenhuma dor.
	Isso  muito bom. Vou dormir. Tenha uma boa noite.
	Voc tambm.
Abrasada e arrasada, Annette foi para o quarto e jogou-se na cama. E as lgrimas foram inevitveis.
"No podia ter acontecido. Eu deveria ter me levantado assim que terminei a massagem. Mas no, feito uma idiota fiquei l e a... tudo aconteceu. E agora... Como eu desejo esse homem!  algo muito forte, que vem do mais profundo do meu ser. Jamais senti por Mark o que sinto por Lucas. E ele apenas me beijou e me fez algumas carcias. Por mim, teria feito amor com ele. Tenho certeza que seria maravilhoso. Mas foi melhor assim. Antes ser rejeitada por ele agora, do que depois. Pois eu fui, sim, rejeitada por ele. Se, por exemplo, Lucas estivesse com Gergia, ele no iria rejeit-la. Nenhum homem, sobre a face da Terra, rejeitaria uma mulher como ela."
	Precisa entender de uma vez por todas, Annette  ela disse, entre soluos , que voc nasceu para ficar sozinha.
No dia seguinte, durante o caf da manh, Annette precisou apelar para o autocontrole que havia conseguido durante anos e anos de treinamento.
	Sente-se  ele disse, assim que Annette entrou na cozinha.  J preparei a omelete.
	Bom dia, Lucas  ela tentou dissimular o que sentia.
	Espero, espero que o dia seja bom mesmo.  Ele lhe serviu a omelete.  Precisamos conversar. Mas no vai poder ser agora. Detesto ter que interromper uma conversa importante.
	No temos nada para conversar.
	Temos, mas  claro que temos. S que j estamos atrasados. V se come logo. Se no estiver pronta em cinco minutos, vou embora e voc pega um txi.
	No gosto que falem comigo dessa maneira.
	Nem eu gosto de falar dessa maneira com algum. Agora, coma.
Furiosa, Annette comeu a omelete.
Durante o trabalho os dois se trataram com um profissionalismo muito mais que formal.
No final da tarde, ao chegar em casa, Annette foi logo ouvir as mensagens que estavam gravadas na secretria eletrnica. Uma delas era de Scott e dizia que a sogra estava melhor e que, portanto, estaria de volta no dia seguinte, no avio das quatro e meia.
Annette acabou de ouvir a ltima mensagem. Quando estava se afastando, o telefone tocou.
	Al  ela disse, ao atender a chamada.
	Annette?  voc?
	Jan?  Ela reconheceu a voz da irm.
	Estou no aeroporto. Por favor, venha me buscar.
	Claro, mas por que...
	Eu precisei vir para c  Jan estava muito tensa.  Venha, a gente conversa depois.
	Certo.
Ao se aproximar do terminal de desembarque, Annette viu a irm parada junto ao meio-fio de uma calada. "Jan  linda mesmo! Ningum diz que somos irms"
	Disse alguma coisa?  Lucas, que fizera questo de acompanh-la ao aeroporto perguntou.
	No, eu no disse nada.
Annette estacionou e correu para encontrar a irm. Depois do abrao muito afetuoso, Jan perguntou:
	Voc est sozinha?
No. Annette fez um quase imperceptvel sinal de cabea e indicou Lucas que j se encontrava bem prximo a elas.
	Esse ...  Annette comeou as apresentaes, mas foi interrompida por Jan:
	Ns nos conhecemos l na casa da Olvia.
	E mesmo! Eu tinha me esquecido.
	Bem, vamos?  Lucas pegou a mala de Jan.
	Vou me hospedar num hotel.
	Acho que no ser necessrio, no quarto que sua irm est ocupando tem duas camas.
Prefiro ir para um hotel.
Apesar de estranhar a atitude da irm, Annette disse:
	A deciso  sua. Para mim  bem mais conveniente me hospedar na casa do Scott.
	Com licena um pouquinho  Lucas disse , acabei de ver um conhecido e quero cumpriment-lo.
	Vocs esto morando juntos?  Jan perguntou, assim que se viu sozinha com Annette.
	No, estamos apenas morando na mesma casa.
	Ele lhe perguntou alguma coisa sobre o que aconteceu nas Olimpadas?
	No, apenas mencionou o fato  Annette disse. Pelo menos, naquele momento, no poderia contar  irm tudo o que estava acontecendo com ela.
	Otimo.  Jan respirou aliviada.  E por favor, no converse com ele sobre esse assunto.
Apesar de querer saber o motivo para aquele pedido, Annette no pde. Ento, sugeriu:
	Por que no fica esta noite l na casa do Scott? Se quiser, amanh, voc vai para um hotel.
	Tudo bem, eu passo essa noite l com voc.
Annette estava estranhando muito o jeito da irm. Depois de terminarem o jantar, Jan se levantou e disse:
	Bem, estou louca para descansar um pouco. Voc me acompanha at o quarto, Annette?
	Claro que sim, Jan.
	Podem ficar  vontade, eu lavo a loua  Lucas disse.
Annette e Jan caminharam para o quarto. Assim que ficaram sozinhas, Annette perguntou  irm:
	O que est acontecendo? Nunca vi voc assim to tensa.
	Ontem  noite, numa festa, me encontrei com Gergia Sanderson.
	E da?
	Voc sabe que no gosto daquela mulher. Mesmo assim, ela me disse algo que voc precisava ficar sabendo.
	E o que foi que ela lhe disse, Jan? Por favor, diga logo. Voc est me deixando assustada.
	Lucas Tremaine assinou um contrato milionrio com uma editora de Londres.
	Pelo que pude entender, Lucas sempre assina contratos milionrios.
	S que desta vez ele est sendo pago para escrever a histria verdadeira sobre o rapto de Victoria Sutter.

CAPITULO VII

Ao ouvir aquilo, Annette sentou-se na cama e, uito aturdida, ficou olhando para as mos.
	Voc entendeu direitinho o que eu lhe disse, querida?  Jan perguntou, muito preocupada com a reao da irm.
	Entendi. Entendi, sim  Annette deu um profundo suspiro.  Mas ningum sabe realmente o que aconteceu, exceto Victoria. E ela nunca vai contar a verdade a ningum.
	Parece que ela j fez isso. Acho que Lucas a pagou para que lhe contasse toda a histria.
"No pode ser verdade. Me recuso a acreditar numa coisa dessa.  cruel demais!"
	E como a gracinha da Gergia ficou sabendo de tudo isso?  Annette perguntou, com extremo sarcasmo.
	Ela ser a responsvel pela divulgao do livro na Nova Zelndia.
"Meu Deus, vai comear tudo de novo. E eu no sei se terei estrutura emocional para viver o que est a minha espera."
Annette segurou a cabea com as mos. Jan, com muito delicadeza, sentou-se ao lado dela na cama e a abraou.
	No fique assim, querida. Voc tem que ter calma e muita fora.
	Claro, claro que sim: calma. Calma e muita fora.
	O que voc acha dele?
	Do Lucas?  Annette perguntou e mordeu o lbio inferior.
	. Do Lucas.
	Ele  extremamente charmoso.
	Oh, minha querida...  Jan logo entendeu toda o drama que a irm estava vivendo.
	Sou mesmo uma estpida, no sou?
	No, no acho que voc seja uma estpida. Ningum manda no prprio corao. E no conheo nenhuma mulher decente que no tenha se apaixonado, pelo menos uma vez, por um cafajeste. Se eu pudesse pegar esse Lucas Tremaine de jeito, era bem capaz de esgan-lo.
	Estou com muita sede  Annette se levantou.
	Eu tambm. Voc vai para a cozinha?
	Vou.
	Ser que pode me trazer um copo de gua? Enquanto isso, vou abrir a minha mala e pegar um pijama. Amanh mesmo deixaremos essa casa. Vamos nos hospedar num hotel.
Annette saiu do quarto e quando estava abrindo a geladeira, ouviu a voz de Lucas:
	Por que resolveu pedir ajuda?
	Eu no pedi ajuda nenhuma  ela logo se defendeu.
	No? Ento, o que trouxe a sua irm at aqui?  Lucas se aproximou dela.
	Ela veio aqui para me ver. Ou ser que isso  proibido?
	Por que no faz a pergunta a mim mesma, sr. Tremaine, ao invs de ficar pressionando a minha irm?  Jan perguntou, da porta da cozinha.
	Tudo bem: o que est fazendo aqui?
	Vim avisar a minha irm sobre o livro que voc est escrevendo.
	Sobre qual livro, especificamente, est se referindo?
	O livro sobre Victoria Sutter.
	Sei...  ele disse, apenas.
	E ento?  Jan parecia mesmo resolvida a enfrent-lo.
	E ento, o qu?
	No vai dizer nada?
	No tenho nada para dizer a voc.
"Quer dizer, ento que  verdade... E eu que cheguei a pensar que poderia ser apenas mentira da Gergia..."
	Claro, claro que voc no tem nada para me dizer  Jan ironizou.
	Isso no  problema seu, sabia?
	E a que voc se engana: tudo o que diz respeito a minha irm tambm diz respeito a mim!
	Voc pediu que ela viesse para c, Annette?  ele perguntou, furioso.
	No, eu...
	Ela no precisa pedir nada para mim. Estou sempre disposta e disponvel para ajud-la.
	Quer dizer, ento, que tambm voc interferia nos treinos dela.
	Mas  claro que no!
	Ento, como se d ao direito de interferir na vida particular de sua irm?
	Vamos parar com isso?  Annette pediu, muito zangada.  Eu estou aqui, sabiam? E no quero mais saber de discusso! Jan, vamos para o quarto!
	Annette, por que voc mesma no me pergunta o que est lhe passando pela cabea?  Lucas parecia muito aflito.
	Acha mesmo que tenho alguma coisa para lhe perguntar?
. E no tem?
Sem dizer mais nada, Annette foi para o quarto na companhia da irm. L chegando, pediu  Jan que no lhe dissesse mais nada. Precisava de tempo para pensar no que estava acontecendo.
Ao contrrio do que havia imaginado, Annette dormiu assim que se deitou. Porm ao acordar, cerca de meia hora mais tarde, viu. que a cama de Jan estava vazia.
De repente, ouviu a voz da irm perguntar indignada:
	Como ousa dizer uma coisa dessa?
"Meu Deus, o que est acontecendo l fora?", Annette vestiu o roupo e, devagar, se encaminhou para a sala. Alvoroados, Lucas e Jan no a viram junto  porta.
	Me diga: por que voc  assim to protetora? Ser que no consegue enxergar o que tanta proteo causou a ela?
	Voc no tem o direito de falar assim comigo!
	E nem voc, mocinha, tem o direito de falar assim comigo!  Naquele instante, Lucas viu Annette junto  porta e lhe disse:  Entre. Entre e participe dessa nossa conversinha!
	Por que resolveu atacar a Jan? S porque ela me contou o que voc est fazendo? Isso no tem o menor cabimento.
	No vou lhe fornecer nenhum tipo e informao para o seu livro. Isso no  problema seu.
	A partir do momento em que Jan chegou aqui, isso passou a ser problema meu, sim, senhora.
	O que esperava que eu fizesse, hem?  Jan no estava para brincadeiras.
	Um telefonema resolveria a situao. Mas, no, voc precisou vir para c!
	Para ajudar a minha irm, iria at ao inferno, se fosse necessrio.
	L na casa da Olvia e do Drake, notei que voc e a sua me a tratam como se ele fosse uma criancinha; uma criancinha que ainda necessita de proteo. E isso no  justo. O que voc sentiria, Jan, caso uma irm mais velha e sua me resolvessem lhe tratar da mesma forma?  Como a moa no respondesse, Lucas continuou:  Tente, pelo menos uma vez, se colocar no lugar da Annette. Ela  uma mulher sensvel e muito inteligente.
	Voc jamais vai entender  Annette disse.  Deixe a minha irm em paz!
	Gostei, gostei muito do que acabei de ouvir. Pelo menos agora a situao se inverteu e voc est protegendo a sua irm, Annette. Essa sua estada aqui em Falalsi, pelo menos, serviu para alguma coisa.
	Voc est totalmente equivocado  Jan, finalmente, disse.
	Ser? Ser que estou equivocado? Eu acredito que no. Infelizmente, por excesso de amor, voc e sua me a tratam, sim, como se fosse uma criana e Annette cresceu achando que havia algo errado com ela.
	Isso no  verdade!  Annette protestou.
	No, no  verdade? Ento pergunte  Jan por que ela veio correndo at aqui.
	Ela j me disse o que a trouxe at aqui.  A vontade de Annette era sair correndo daquela sala. Mas sabia que precisava ficar e enfrentar a situao.  Minha irm ficou sabendo que voc est pretendendo escrever um livro sobre o rapto da Victoria. E estou muito feliz que ela tenha vindo. Tenho certeza que voc jamais me falaria algo a respeito.
	Mais cedo, ou mais tarde, teria lhe contado tudo.
	E mesmo? Quando? Depois que tirasse dela todas as informaes que precisa?  Jan perguntou indignada.
	Veja s, Annette, a sua irm, no mais profundo do seu corao, acha que voc s me interessa por causa das informaes que, supostamente, pode me fornecer. Isso por que acredita que um homem jamais se interessaria por voc, uma mulher to diferente dela.
	Voc pode distorcer a situao at quando bem entender, sr. Tremaine!  Jan continuou a enfrent-lo.  Mas a minha irm sabe, sabe... --- Jan interrompeu a frase e Annette ficou aterrorizada ao ver lgrimas nos olhos dela.
	Continue, estamos querendo escutar o que tem para dizer  Lucas disse, com frieza.
	Isso no  verdade, Annette  Jan disse, quase num sussurro.
Muito confusa diante daquilo tudo, Annette se aproximou da irm, a puxou pela mo e disse:
	Tente se acalmar. Tente se acalmar e no d ouvidos a ele. Esse homem  um mestre em manipular as pessoas.
Jan, chorando, foi para o quarto. Annette a ajudou a deitar-se e, depois de dar-lhe um beijo na testa, disse:
Agora, tente se acalmar e v se dorme.
Mas foi Annette quem no conseguiu dormir. Passou a noite inteirinha infeliz, culpando-se por ter se apaixonado por um homem que a havia enganado.
Logo de manh cedo, o telefone tocou. Pouco tempo depois, Lucas batia na porta do quarto.
	Annette, por favor, acorde e venha atender o telefone. E Serena. Ela quer dar uma palavrinha com voc.
Ela vestiu o roupo e foi para a sala.
	Me desculpe, querida, por tir-la to cedo da cama. Mas no queria deixar o recado na secretria  Serena, bastante constrangida, foi logo dizendo, assim que Annette atendeu  chamada.
	No tem importncia, eu acordo sempre muito cedo.
	Olha, acho que minha me sai do hospital daqui uns quinze dias. Mas, mesmo assim, depois precisarei ficar com ela pelo menos por mais uma semana. Portanto, vamos precisar da sua ajuda ainda por um bom tempo. Algum problema para voc?
	No, mas  claro que no. Posso ficar aqui por mais um ms, no se preocupe. Como est a sua me?
	Graas a Deus, est melhorando a cada dia que passa. O mdico disse que em poucos meses ela estar completamente restabelecida
	Isso  maravilhoso, Serena. Voc deve estar aliviada.
	Aliviada?  Serena perguntou e Annette sentiu que, do outro lado da linha, ela sorria.  Estou me sentindo bem mais que aliviada. Vou lhe dizer uma coisa com toda sinceridade e espero que no se choque: ainda bem que a clnica onde voc iria trabalhar pegou fogo. Se isso no tivesse acontecido, Scott e eu estaramos perdidos. Espere um pouco, por favor.  Um silncio se fez do outro lado
da linha. Instantes depois, Serena continuava:  Scott est lhe enviando um beijo e disse que hoje estar a. O Lucas est por perto?
	Est, sim.
	O Scott est querendo falar com ele.
	Eu vou cham-lo.
Assim que Lucas foi atender o telefone, Annette entrou no banheiro. E s o reencontrou um pouco mais tarde para lhe dizer:
	Pode ir para o cais. Vou para l um pouco mais tarde, de txi.
	Certo  ele respondeu, apenas.
Annette foi para o quarto, onde encontrou a irm j acordada.
	Bom dia, Jan.
	Ser? Ser que teremos mesmo um bom dia?
	Com toda certeza.  Annette tentava se mostrar otimista.
	Voc vai trabalhar hoje?
	Vou.
	E eu vou para o hotel.
	Boa ideia.
	E voc vai para o hotel comigo?
	Essa  uma outra boa ideia. E melhor deixar a casa para o Scott e o Lucas.
	Estou pretendendo me hospedar no Yellow Paradise. Quer que eu faa as suas malas?
	Eu gostaria muito.
Annette, ento, se trocou, tomou o caf da manh e chamou um txi para ir trabalhar.
Quando, depois de um dia de trabalho, o barco atracou no cais, Scott os recebeu efusivamente e depois levou Annette para o hotel.
Cansada e muito preocupada com tudo o que estava acontecendo, ela se dirigiu ao bar do hotel para tomar um copo d'gua. E qual no foi a surpresa, quando viu Jan acompanhada por Cynthia.
	Mame! Voc por aqui! Mas que surpresa!  Annette beijou o rosto da me.  E o papai? Ele veio tambm?
	Infelizmente, no, meu amor. Seu pai est no Peru. Mas ele lhe mandou um beijo.
	E o que a trouxe at aqui, de repente?
	Vim porque est precisando de mim, querida.
Annette resolveu ficar calada. No podia ter uma atitude hostil com a me.
"Estou to angustiada, querida, que desta vez nada vai poder fazer por mim", Annette teve vontade de dizer. Mas, ao invs disso, sentou-se e comeou a conversar sobre generalidades.
Os dois dias que se seguiram foram de relativa tranquilidade. Um dia aps ter se hospedado no hotel, Jan decidiu voltar para Auckland. Cynthia ficou. Mas, obstinadamente, mesmo sabendo que a me estava bastante ressentida com a atitude que resolvera tomar, Annette se negava a discutir os problemas que vivia.
Um dia, quando Annette tinha acabado de sair do banho, o telefone tocou.
	Como ? Est disposta a conversar comigo?  Lucas perguntou.
	No  Annette respondeu e desligou o aparelho.
	Quem era?  Cynthia quis saber.
	Engano.  Ela inspirou profundamente.  Vamos tomar um drinque antes do jantar?
	Vamos, sim.
	Ento, vou secar o cabelo e me arrumar.
Assim que se sentaram numa mesa do bar do hotel, Leigh Fanning, um senhor de meia-idade, que estava deslumbrado por Cynthia, se aproximou.
"Se ele soubesse como a minha me  louca pelo meu pai, esse homem desistiria de assedi-la", Annette pensou, com muita vontade de rir.
Cynthia, sempre muito amistosa, fingia ignorar o interesse que Leigh demonstrava por ela.
Quinze minutos mais tarde, a conversa foi interrompida por uma voz que fez Annette gelar:
	Boa noite, Annette, sra. Carruthers...  Elegantssimo, usando uma cala preta de linho e uma camisa amarelo-clara, tambm em linho, ele sentou-se.
	Estou querendo muito conversar com voc.
	Mas eu, sr. Tremaine, no estou querendo conversar com o senhor.
Cynthia, boquiaberta, assistia  cena sem conseguir articular uma palavra sequer. O mesmo acontecia com Leigh Fanning.
	Mas ns temos que conversar.
	No, ns no temos que conversar.  Annette se levantou.  E, se me do licena, vou comer no quarto.
Voc no pode continuar agindo assim!  Lucas protestou.
	Por favor, sr. Tremaine, no volte a me procurar.
Na manh seguinte, Scott disse casualmente  Annette:
	Lucas est preparando o iate. Ele est pensando em seguir at Fiji.
	S um louco enfrentaria o mar numa poca como essa.
	Meu amigo no tem medo de furaces.
	Ningum sobrevive a um furaco em pleno mar.
	s vezes acontece.  Scott sorriu.  Mas ningum pode afirmar que ele vai ser pego por um furaco. Se eu fosse voc, no me preocupava. Lucas j  bem grandinho.
	Mas isso  loucura, Scott.
	Lucas sabe o que est fazendo. E quero lhe fazer uma proposta, priminha: por que no tira um dia de folga? Amanh para mim estaria timo. Voc me parece muito cansada.
	Mas e os turistas?
	Amanh vou sair s com um. E ele  mergulhador profissional. Portanto, sua presena  totalmente dispensvel. Por que no aproveita para passear um pouco com a sua me?
	Obrigada, Scott. Vou fazer isso.
A tarde, quando estava no cais  espera de Scott, um rapaz se aproximou dela. Depois de fit-la com extremo interesse, coisa que os ilhus sempre faziam, o que a levava a acreditar que gostavam muito de mulheres altas, ele lhe entregou um bilhete.
No demorou muito para que Annette logo imaginasse que aquela letra pertencia a Lucas.
O bilhete dizia:
Estou agora morando no meu iate e tenho aqui comigo algo que talvez lhe interesse muito: o porta-retrato que a Olvia lhe deu. Se realmente tiver algum tipo de interesse nele, Hone, o rapaz que lhe entregou este bilhete, pode lhe dizer como me encontrar.
	E s me seguir, moa.  Hone comeou a se afastar.
	Espere um pouco!
Hone parou e ficou esperando.
"Mas que histria  essa? Como o porta-retrato foi parar nas mos dele?"
	O que est acontecendo?  Scott, perguntou ao se aproximar.
Ela, ento, explicou-lhe o que estava acontecendo.
	E voc est pretendendo ir at l?
	Estou, sim. Gosto muito daquele porta-retrato.
	Bem, no vou poder esper-la. Tenho uma reunio muito importante. Depois voc pega um txi para voltar ao hotel?
	Claro.
Annette, ento, seguiu o rapaz at o local onde o iate de Lucas estava ancorado. L chegando, Hone indicou-lhe a escada.
	Eu seguro a escada para a senhora. O mar hoje no est para brincadeiras.
	Obrigada  ela agradeceu e subiu a escada.
Ao chegar no convs da embarcao, Annette no viu nem sinal de Lucas. Devagar, por causa do balano do iate, ela se dirigia  cabine de comando e viu, do outro lado dos arrecifes, as ondas se quebrarem com violncia. Naquele mesmo instante, Annette ouviu o som de um motor e logo avistou Hone se afastando no pequeno bote que pertencia ao iate.
	O que voc est fazendo?  ela gritou para o rapaz e tentou voltar. De novo Annette ouviu o som de um motor.
"Algum est ligando o motor do iate." De repente, Lucas apareceu diante dela.
	Hone fugiu com o seu bote.
	No d para se confiar em ningum mesmo. Venha, ns vamos peg-lo.  Os dois foram para a cabine de comando.  Segure o timo, enquanto vou dar uma olhada l fora.
Sem pensar, Annette seguiu-lhe as instrues. Lucas voltou para a cabine de comando e assumiu a di-reo do iate Depois de alguns minutos, ele disse:
	Sabe, estou comeando a acreditar que a sua irm tem mesmo razo. Voc no tem nenhum senso de auto-preservao.
	Por que est me dizendo isso?
	Voc caiu na minha armadilha e nem percebeu.
	Quer me fazer o favor de dizer o que est acontecendo?
	Estamos indo para uma ilha a alguns quilmetros daqui.
	Uma ilha?  Annette perguntou assustada.
	A ilha pertence a um amigo e ele a emprestou para mim.
	Por qu?  ela quis saber.
	Precisamos ficar sozinhos para conversar. E essa foi a maneira que encontrei para que isso acontecesse.
	Me leve j de volta!
	De maneira alguma. Eu a estou raptando, Annette Carruthers.
	Voc est o qu?
	Ser que no ouviu o que eu disse?  Ele sorriu.  Mas eu posso repetir: estou raptando voc.
	Scott est...
	Seu primo achou a ideia excelente  Lucas a interrompeu.  Contei os meus planos para ele ontem  noite.
Quanto a sua me, no se preocupe. Scott vai ligar para ela e dizer que est tudo bem.
	Scott no poderia ter feito isso comigo!
	Por qu? Scott me parece o nico da sua famlia que a trata como adulta. Ele tambm acha que sua famlia interfere muito na sua vida. Acorde, Annette: voc j tem vinte e cinco anos! Acha muito normal a sua irm e a sua me terem se deslocado at aqui para ajud-la a resolver assuntos que s a voc pertencem?
	Elas vieram porque sabem que aquela histria que aconteceu com Victoria me feriu profundamente.
	No, as duas vieram porque acreditam que no pode cuidar de si mesma, porque acreditam que voc  uma garotinha que vai precisar da proteo delas at morrer. O amor j decepcionou milhes e milhes de mulheres pelo mundo afora. Nem por isso essas mulheres precisaram da ajuda da famlia. Elas ergueram a cabea e continuaram em frente.
	Aonde est querendo chegar com essa conversa?  Annette sentia o corao batendo forte dentro do peito.
	No muito longe. Estou me referindo ao trmino do seu noivado.
	Voc no sabe nada do que aconteceu.
	No se preocupe. Agora teremos todo o tempo do mundo e poder me contar tudo.
	No tenho nada para contar: principalmente a voc!
Ele deu uma risadinha irnica.
	Voc  um homem muito arrogante, Lucas Tremaine!
	Sou mesmo?
	O mais arrogante que conheci!
	Por que no senta e tenta relaxar?
	Eu desprezo voc.
	Eu sei.
	O porta-retrato est mesmo aqui com voc?
	Mas  claro que est. Eu no minto, Annette.
	Mas  claro que no.  Foi a vez dela rir com ironia.  Voc simplesmente omite as coisas.
	Por que no me perguntou se estou mesmo disposto a escrever aquele livro? Voc, simplesmente, acreditou em tudo o que lhe disseram.
	No quero falar neste assunto com voc.
	Por qu?
	Porque esse assunto  s meu, sr. Tremaine.
	Ser que  s seu mesmo? Eu tenho as minhas dvidas. Acontece, Annette, que eu vi a expresso do seu rosto naquela primeira fotografia que o jornal publicou, depois que a Victoria Sutter resolveu contar aquela histria  imprensa. Eu estava l e acompanhei tudo com muito interesse.
	Voc estava l?
Lucas deu um profundo suspiro e comeou a falar como se estivesse sozinho:
	Quando Clara e meu filho morreram, tive muito tempo para decidir o que fazer da vida. No incio, achei que no valia mais  pena viver sem eles.  Ele voltou a dar um profundo suspiro e se calou.
Annette, no sabia o que fazer, nem o que dizer. Por que Lucas resolvera mencionar um episdio to triste, o pior que, com toda certeza, j vivera?
Ela olhou para as prprias mos e, depois, para as mos de Lucas que seguravam com firmeza o timo.
	Depois de muito desespero, achei melhor parar de ficar me culpando. E decidi encarar os fatos e sobreviver. Voc, no entanto, fugiu. E continua fugindo at hoje!
	No estou fugindo. E  impossvel para mim imagin-lo se culpando de qualquer coisa.
	Impossvel?  O sorriso dele agora era de uma tristeza infinita.  Pois fique sabendo, Annette, que sou um ser humano igualzinho a qualquer outro que vive neste planeta: meu sangue  vermelho, tenho os meus momentos de medo e de profunda insegurana. E tambm sofro muito. Muito mesmo.
	Voc deveria ter me dito logo o que estava pretendendo. Pelo que pude deduzir, s no me contou porque est muito interessado em escndalos e no dinheiro.
	No sou um homem que corre atrs do dinheiro, Annette. E j deveria ter percebido isso. Estou atrs da verdade. No acha que o pblico tem o direito de ficar sabendo a verdade?
	Claro que o pblico tem direito  verdade. Mas o que aconteceu comigo pertence ao mundo dos esportes. E ns, os atletas, no passamos de entretenimento para as pessoas. 
	 assim que voc se v? Como um entretenimento?

CAPITULO VIII

Annette no respondeu a pergunta feita por kXucas. Muito preocupada, foi para o outro lado da cabine de comando, num local onde pudesse se manter o mais distante dele e ficou olhando para o mar.
"Se ele tivesse apenas querendo me seduzir, seria muito mais fcil enfrentar essa situao. Mas Lucas no quer me seduzir. Ele quer informaes, e no vai desistir enquanto no consegui-las."
Pela primeira vez na vida Annette no se sentia asfixiada dentro de uma cabine. Com toda certeza aquele iate tinha sido projetado para uma pessoa bem alta.
Ela, ento, desceu uma pequena escada e saiu num compartimento bem amplo.
"E ele tem tudo aqui: geladeira, freezer, fogo, uma mesinha e esse sof que parece delicioso." Annette sentou-se e viu no cho, prximo ao sof, vrios lbuns de fotografias. Curiosa, pegou um deles, mas se sentiu meio inibida em abri-lo.
"Se eu fizer isso, estarei invadindo a privacidade de Lucas." Ela ficou pensando durante alguns segundos e concluiu: "No, no estaria invadindo a privacidade dele. Se fosse algo muito particular, Lucas no os teria deixado  vista."
Annette abriu o lbum. E deu de cara com um Lucas muito sorridente, ao lado de uma mulher de beleza extica que tambm sorria feliz.
"Ento, Clara era to alta quanto eu! Isso jamais tinha me passado pela cabea."
Paralisada, Annette ficou olhando para a fotografia durante vrios minutos.
"Os dois formavam um lindo casal. E eu no tenho direito nenhum de ficar olhando esse lbum."
Ela fechou o lbum e o colocou onde o havia encontrado. Em seguida, levantou-se e voltou para a cabine de comando. Lucas, atento ao que fazia, no notou-lhe a chegada.
Minutos mais tarde, j junto ao ancoradouro, ele desligou o motor do iate e pressionou um boto. Logo se ouviu o barulho da ncora caindo no mar.
"E incrvel a destreza e a familiaridade que Lucas tem com essa embarcao e com o mar. Nunca vi nada semelhante. E tambm nunca vi nada semelhante a essa ilha. Que coisa mais linda..."
Ele, ento, voltou-se e ao v-la, disse:
	Ah, voc est a!  Sem dizer mais nada, foi verificar se estava tudo certo tom a ncora.
Annette, ento, se aproximou do painel de controle do iate e, abstrada, comeou a olhar cada um dos instrumentos de navegao.
	Quer tomar um drinque?  ele perguntou ao voltar para a cabine.
	Quero, sim. Obrigada.
	E o que prefere? Um vinho, ou quem sabe...
	Um suco de frutas, caso voc tenha. Caso contrrio tomarei um pouco de gua.
	Espere um momento, por favor.
Ao voltar, Lucas trazia nas mo um copo longo com suco de melo.
	Obrigada  ela agradeceu, ao pegar o copo. E, depois de experimentar a bebida elogiou:  Est delicioso.
	Annette, precisamos conversar.
Ao ouvir aquilo, mesmo contra a vontade, Annette estremeceu. Um misto de raiva e desespero havia se apossado dela.
	Por qu?  Annette perguntou, fazendo de tudo para se controlar.  Por que acha que tenho de ouvi-lo? No pode me dizer nada que eu j no saiba. E nem quero ouvir as suas desculpas.
	Olha aqui, mocinha, voc vai, sim, me ouvir. Vai me ouvir, nem que para isso eu tenha que algem-la ao meu pulso.
	Vou ter que ouvi-lo mesmo que no acredite em uma s palavra que vai me dizer? O que pensa que sou? Uma imbecil?
	No  ele respondeu com nfase , voc  a pessoa que est me deixando quase maluco. Faa o favor de parar de me agredir e me oua!
	Isso  perda de tempo.
	Mesmo assim, quero que me oua.
	Ser que j no ultrapassou todos os limites, Lucas?
	No, eu continuo perfeitamente dentro dos limites. Mas vou ultrapass-los, caso no me oua.
	No tenho medo de ameaas.
	Isso  timo. Ento, por favor, me oua.
	Pelo jeito vou ter que ouvi-lo mesmo. Afinal, trancada aqui neste barco com voc, no me resta outra opo.
	Ainda bem que estou diante de uma mulher sensata 	ele disse, com uma certa ironia.
	Eu sou uma mulher sensata e me orgulho disso.
	Tudo bem, Annette, tudo bem.  Lucas ergueu as mos, como se com aquele gesto fosse capaz de apazigu-la.
	Mas vamos ao que interessa: eu desejo muito voc.
Ao ouvir aquilo, as pernas de Annette comearam a tremer. Ser? Ser que tinha ouvido direito?
"Isso s pode ser mentira. Uma grande e preparada mentira. Preparada, sim, para alcanar os objetivos que ele tem em mente!"
	Se quer mesmo saber o que est acontecendo comigo, o desejo que sinto por voc chega a doer, tamanha  a intensidade dele.
	Desejo...  Ela riu, uma risada que demonstrava o quanto no acreditava nas palavras que Lucas tinha acabado de lhe dizer.  Desejo...
	S existe uma maneira de lhe mostrar exatamente o que estou sentindo.  Lucas, bem lentamente, retirou-lhe o copo das mos e o colocou sobre um balco. Annette, simplesmente seguia-lhe os gestos. Mas, de repente, mudando completamente de atitude, Lucas segurou-lhe os dois pulsos e os levou para trs. No instante seguinte, ele a beijava com desespero.
Pega de surpresa, mas indignada com o que estava acontecendo, Annette comeou a tentar desesperadamente se soltar.
	No resista, Annette, por favor, no resista  ele dizia num tom ntimo sensual.
Mas ela no queria mais nada a no ser escapar daquele corpo contra o seu, daquele corpo poderoso que a fazia sentir-se frgil e indefesa.
"Lute, Annette, lute! Esse homem no tem poder nenhum sobre voc. Alm disso, voc tambm  uma mulher muito forte!"
E ela lutou. Com toda fora do seu corpo atltico. Mas tudo parecia em vo. Lucas conseguiu domin-la e voltou a beij-la. E estava cada fez mais difcil no corresponder queles beijos.
"Eu preciso continuar resistindo! Esse homem teve comigo uma atitude ignbil. Ele estava tentando trair a minha boa-f!"
Num esforo supremo, Annette conseguiu soltar uma das mos e deu-lhe um tapa no rosto.
	Puxa!  Lucas, meio sorrindo, se afastou um pouco e levou uma das mos ao local onde tinha sido atingido.  Voc  mesmo uma mulher e tanto. Nunca tinha sido atingido assim.
	E vai ser atingido de novo se voltar a se aproximar de mim.
	Vou mesmo?  Lucas deu um passo para frente.  Ento, vamos l! Coragem, moa!
	No me provoque, Lucas Tremaine.
	Voc parece pronta para atacar a minha jugular.
	No  uma m ideia.
	Tambm acho que no. Vamos, Annette, vamos: aqui est a minha jugular, pronta para ser mordida.  Ele mostrou-lhe o pescoo.  J tive a sua mo contra a minha pele, vai ser muito bom, agora, sentir a sua boca e os seus dentes.
	Chega! Chega de palhaada!
	Palhaada?  ele perguntou.
	Isso mesmo: chega dessa palhaada.
	Pois saiba que eu no estou brincando. No brinco com coisa sria, sabia? Por que acha impossvel um homem amar voc?
	No acho isso impossvel. Sou uma mulher perfeita mente normal  ela disse, de pronto.
	Mas garanto que no se considera sexy, no se considera desejvel, no se considera capaz de despertar a paixo de algum. Voc, simplesmente, Annette, no conecta tais adjetivos  auto-imagem que construiu para si mesma. Percebi isso quando danamos juntos. Voc fez questo de ignorar o efeito devastador que estava causando em mim.
	Efeito devastador que eu causava em voc!  Ela voltou a rir.  Essa  muito boa! Era Gergia quem estava causando um efeito devastador em voc! O que est pensando que eu sou? Uma idiota?
	No, de jeito nenhum. Mas acho que  do tipo de mulher que divide os homens em dois tipos de categorias: com aqueles que no a vem como uma mulher atraente, voc se mostra amvel, brincalhona e muito amigvel. Mas com os que a vem com outros olhos... Coitados! Esses esto perdidos. Com eles voc se mostra distante, sria e, muitas vezes chega at a ser antiptica. Afinal, voc deve se perguntar: o que esse idiota est vendo em mim? O que ele pode ver numa mulher com a minha constituio fsica? Ele s pode estar querendo brincar comigo. A, o pobre coitado se v castrado pela insegurana e se afasta, achando que no  bom o suficiente para se relacionar com uma mulher to especial.
	Isso no  verdade.
	E verdade, sim.
	Como pode saber que  dessa maneira que ajo?
	Ser que se esquece que passamos vrios dias trabalhando juntos? E nesses dias, Annette Carruthers, pude verificar direitinho a sua maneira de agir.
Annette ficou em silncio. E admitiu para si mesma que Lucas estava corretssimo. Era exatamente daquela maneira que vinha se conduzindo pela vida. A insegurana que sentia era tanta que estava sempre afastando os homens que mostravam um certo interesse por ela.
	Ser que disse alguma inverdade?  Lucas quebrou o silncio imposto por ela.
	Isso tudo  conversa fiada. Estamos perdendo tempo: o seu e o meu.
	No concordo com voc.
	Olha, Lucas, me leve de volta para Fala'isi.
	No.
	Por qu?
	Porque ainda no acabei de lhe dizer tudo o que est sufocado aqui, dentro do meu peito. E vou continuar falando. E voc vai continuar me ouvindo, quer queira ou no. Ele deu um profundo suspiro.
	Por favor, eu...
	Quando eu a vi pela primeira vez, Annette, algo de muito srio aconteceu comigo. Muito srio mesmo. Foi algo to forte que no d nem para ser expressado em palavras.
 Lucas a interrompeu e levou as mos ao peito.  E tudo aconteceu aqui, dentro do meu corao. Fiquei assustadssimo com o que estava me acontecendo. E,  claro, fiz questo de me dizer, para me tranquilizar, que tudo no passava de desejo.
"Meu Deus, como ele consegue mentir tanto assim? Ser que esse homem no se impe limites? Ser que o livro que est querendo escrever  to importante assim para ele?"
	No est acreditando em nada do que eu disse at agora, no ?
	No, no estou.
	Eu sabia.  Ele balanou a cabea de um lado para o outro. Deve estar achando que estou querendo lev-la para a cama. E isso no  mentira, Annette. Naquela noite que voc me massageou, mal pude conter o meu desejo. Mas me diga: por que  to difcil acreditar que  uma mulher extremamente desejvel? S por causa da sua altura e da sua constituio fsica?
	Os homens, sr. Tremaine, se interessam por outro tipo de mulher.
	 mesmo?  ele ironizou.  Ser que j conversou com todos os homens que existem sobre a face da Terra?
	Para os homens eu no passo de uma coisa extica.
	Ouviu como acabou de se referir a voc, Annette.
	Coisa. Voc disse: para os homens eu no passo de uma coisa extica, E voc no  uma coisa. Voc  uma mulher linda e adorvel.
	S falta agora voc me dizer que sou meiga, frgil e delicada.
	E voc , sim, uma mulher meiga, frgil e extremamente delicada.
	Voc enlouqueceu.
	Estou falando da Annette que mora dentro de voc, sabia? O seu corpo, que tambm acho fantstico, foi preparado para as disputas. Se ele  diferente do das outras mulheres, deveria ficar orgulhosa. Ele  o seu patrimnio. Foi ele que a levou a alcanar a glria olmpica, onde s poucas pessoas chegam. E no pode continuar ignorando a existncia dele.
	O qu? Voc acha que eu ignoro as existncia do meu corpo? Agora voc enlouqueceu de vez.
	Sinto como se voc tivesse de administrar duas pessoas distintas: uma que mora escondida dentro do seu peito e a outra, que se expressa em pblico. E a que mora dentro do seu peito , sim, meiga, frgil e muito delicada. A outra tambm  tudo isso. Mas voc faz de tudo para manipul-la.
: No entendi nada do que voc acabou de dizer.
	Entendeu. Mas  claro que entendeu. Alm de tudo Annette, voc  uma mulher inteligentssima, talvez a mais inteligente que encontrei durante toda a minha vida.
	Acho que por hoje chega, Lucas. Suas anlises foram longe demais.
	E voc tambm me deseja, Annette  Lucas no estava disposto a desistir.
	Eu no desejo voc.
	Deseja. E me responda uma coisa: por que correspon deu ao meu beijo, depois que me massageou?
	Eu...
	No precisa me dar uma resposta agora. Temos a noite toda pela frente. E temos amanh, tambm.
	Eu no quero mais continuar conversando com voc.
	Nem eu. Detesto competio intelectual. Acho que a gente deve economizar as palavras.
	Dei uma olhadinha num dos seus lbuns de fotografias e...  ela se ouviu dizendo.
	E... Continue, Annette.
	Sua mulher era muito linda.
	Ela est morta.
	Mas voc est vivo. E eu, sou uma atleta de verdade. Nunca me contentei como o segundo lugar.
	O que est querendo me dizer?
	Voc sabe exatamente o que estou querendo dizer.
	Acho que no sei, no. Mas de uma coisa estou certo: vai ter que aceitar a ideia de que eu a desejo. E se livrar, definitivamente, do que a sua famlia fez com voc.
	Minha famlia me ama muito.
	Acho que eles a amam at demais. E, por excesso de amor, no viram que a estavam sufocando com tanta proteo. Vai ter que comear a acreditar em voc, Annette.
	Eu acredito muito em mim.
	Como profissional e como atleta, eu no tenho a menor dvida que acredita. Mas quero que comece a acreditar em voc como mulher. E antes que eu me esquea: eu ia, sim, lhe contar sobre aquele maldito livro. S no tinha encontrado o momento certo.
	Estava esperando para me contar tudo depois que me levasse para a cama?
	No. E no gosto de saber que voc tem esse tipo de conceito sobre mim. Se tivesse agido dessa maneira, no passaria de um homem inescrupuloso, de um grande aproveitador. E esse livro, quero que saiba, no  exatamente sobre o suposto rapto da Victoria Sutter. Estou querendo falar a respeito de superatletas. Quero analisar por que uns se deixam encantar pelos falsos benefcios dos esterides e outros, como voc, se negam a us-lo. Na entrevista que fiz com a Victoria ela admitiu que fez uso deles.
	Por que no foi sincero comigo? Por que no me contou quais eram as suas pretenses?
	Queria que confiasse em mim.
	Voc ficou me entrevistando o tempo todo. E isso no  justo. E tambm veio para Fala'isi porque soube que eu estava trabalhando com o Scott.
	No, de jeito nenhum. O fato de eu ter vindo para c agora foi uma grande coincidncia. Vim porque a Olvia me pediu para que eu lhe entregasse o presente. Eu ia procur-la para entrevist-la mais tarde.
	E resolveu fazer isso agora?
	No estou entrevistando voc.
	Lucas, por favor, me leve de volta para Fala'isi.
	Por favor, Annette, acredite em mim. Estou falando a verdade.
	No, Lucas, no d para acreditar em voc  Annette disse, com muita calma.
	Tudo bem: voc venceu. Eu, ao contrrio de voc, Annette, sei perder. A vida me ensinou isso. E eu aprendi.
Continue pela vida afora sentindo pena de voc mesma. Mas de vez em quando, s de vez em quando, pense em como seria diferente se um dia conseguisse superar os limites, as barreiras, que voc mesma se imps.
Lucas no disse mais nada. Com gestos precisos, ligou o motor do iate, iou a ncora e voltou para Fala'isi. S quando j estavam na rua, em frente ao cais ele disse:
	Pronto, Annette. Agora voc pode correr para o hotel e se esconder da vida.
	Eu...
	Por favor, no diga nada. Nada do que disser vai fazer com que a minha decepo diminua.  Ele fez sinal para um txi que estava passando.  Ah, estava me esquecendo de lhe devolver isso.
No instante em que Lucas ia entregar-lhe o porta-retrato, o objeto caiu no cho.
Annette, imediatamente abaixou-se, o pegou e o colocou dentro da bolsa.
	Sinto muito. Aconteceu alguma coisa ao porta-retrato?
	Acredito que no. Mas no e preocupe, se aconteceu algo com ele eu o conserto.
Lucas, ento, indicou-lhe o txi e disse:
	At um outro dia, Annette Carruthers. E, acredite, foi um imenso prazer conhec-la.
Annette entrou no txi sentindo-se mortificada. Depois de dizer ao motorista para onde queria ir, comeou a pensar freneticamente:
"E se Lucas estiver falando a verdade? E se ele realmente est interessado em mim? Se isto estiver acontecendo, agi de uma maneira injusta e estpida. Meu Deus, como tive vontade de abra-lo, de beij-lo, esquecer tudo o que me aconteceu e, pelo menos uma vez na vida, ser eu mesma, me entregar  essa paixo que me queima por dentro, que me devora a alma e o esprito. Mas eu no podia me arriscar. O medo que sinto de ser ferida  imenso. Mas ele falou muitas verdades a meu respeito. Preciso dar uma chance a essa Annette que trago dentro de mim. Preciso conseguir um equilbrio mais saudvel entre a pessoa que sou realmente e essa que aparento ser. Talvez, a, eu consiga ser feliz." Ela inspirou profundamente. "Mas como? Como vou conseguir ser feliz longe do Lucas? Ele  tudo o que eu sempre sonhei para mim. Pena que nos encontramos nessas circunstncias e que, no fim, no consegui confiar nele. Mas se ele estava dizendo a verdade, acabei de cometer a maior besteira de toda a minha vida!"
Ao descer diante do hotel, Annette tentava disfarar as lgrimas.
O outono em Auckland era sempre muito quente e hmido. Como a clnica onde iria trabalhar ainda no se encontrava pronta, Annette tinha todo o tempo do mundo para pensar no que acontecera em Fala'isi.
Um dia, enquanto conversava com Jan, Annette disse:
	Ele no podia ter dito tudo aquilo para voc.
	Quem?  Jan a fitou espantada. Desde que havia chegado de Falalsi, Annette jamais tocara no nome de Lucas.
	Lucas Tremaine.
Jan deu um profundo suspiro e disse:
	Hoje vejo que ele estava corretssimo.
	O qu?  Annette perguntou espantada.
	Ele  um homem muito perspicaz. Pensei muito em tudo o que ele me disse e tenho que admitir, embora deteste lhe dizer isso, que sempre senti muita pena de voc. Mas o que Lucas no sabe, e que fica bem mais difcil para eu admitir,  que a pena que sempre senti de voc foi a maneira que encontrei de esconder a minha inveja.
Boquiaberta, Annette ficou olhando para a irm.
	 isso, sim: eu sempre a invejei muito. Quando mame se casou com Stephen eu fiquei muito contente. A, voc nasceu e logo constatei que ele era muito mais seu pai do que meu. E voc logo se revelou um garotinha especial: determinada, inteligente boa em tudo o que resolvia fazer. E eu? Bem, se comparada a voc, eu no passava de uma florzinha toda delicada. Ningum me levava a srio. E ainda continuam a no me levar a srio. Voc se tornou uma atleta respeitada, ganhou uma medalha olmpica, se formou em fisioterapia. E eu...
	Pare com isso, Jan. No continue se menosprezando desse jeito. Todo mundo sabe o quanto trabalha duro na escola, no hospital e...
	No  a mesma coisa.  Foi a vez de Jan interromper a irm.  Mas me responda: o que realmente aconteceu entre voc e o Lucas? Se no quiser, no precisa responder.
	Bem, eu disse a ele que no iria lhe falar nada que pudesse usar no livro. A, ele foi embora.  Annette no queria entrar em detalhes. A ltima conversa que havia tido com Lucas ainda a perturbava muito.  No quero mais saber de fama e notoriedade, Jan. Quero ficar no meu canto, quieta.
	Quer ficar no seu canto, quieta e morrendo de amor por Lucas Tremaine.
	Isso um dia passa.
	Ser? Ser que passa mesmo? Minha querida  Jan falava com extrema doura , um dia voc resolveu ser a melhor arremessadora de dardo do nosso pas. A, treinou muito, se dedicou e conseguiu o que tanto almejava. S que no foi suficiente. Voc queria mais, muito mais. E resolveu ser a melhor do mundo. E, como era de se esperar, tambm chegou l. Agora, se quiser ficar com o homem que ama, tambm vai ter que lutar muito.
	No  a mesma coisa.
	E a mesma coisa, sim. E voc sempre soube que, para conseguirmos o que queremos, precisamos correr riscos. S os covardes desistem. E voc, minha querida, nunca foi covarde.
	Como posso concorrer com uma mulher fantasticamente linda, Jan?
	A quem voc est se referindo?
	A mulher do Lucas.
	Ningum  to perfeito do jeito que voc est acredi tando. E, alm disso, a mulher dele est morta.
Naquela noite, Annette pensou muito nas palavras da irm.
	Preciso lutar, lutar pelo homem que amo.  Ela se aproximou da cmoda, onde tinha colocado o presente que havia ganho de Olvia e perguntou  mulher do retrato:  No acha que estou certa? No fim, foi voc a responsvel por eu ter conhecido o Lucas. Agora, bem que poderia me ajudar.
Na queda que havia sofrido no cais l em Fala'isi, o por-ta-retrato no sofrera dano algum. Mas quando o havia checado, j em Auckland, Annette tinha descoberto, na parte de trs do objeto, entre o retrato e a moldura, um pedacinho de papel.
 O que ser isso?  Ela havia se perguntado e retirado o pedao de papel que ali se encontrava. E pudera ler, algo que parecia uma poesia, escrita numa letra manual minscula:
Encontrei o meu amor e voc encontrou o seu. Meu retrato  encantado e levou o Amor para o seu lado.
E agora, que tem o Amor ao seu lado, e o corao apaziguado, passe o meu retrato adiante, e esse Amor ser abenoado.
Annette, ento, tinha copiado a poesia e, depois, colocado o pedacinho de papel no local de onde o havia retirado.
Naquele instante, Annette lembrou-se do que dizia a poesia. Sorriu e disse baixinho para a mulher do retrato:
 Voc deve ter sido muito romntica. Mas acho que teria muitos problemas com os homens de hoje. Eles so muito difceis. E a vida est, digamos... bastante complicada. Annette ao se deitar sentia-se mais leve.
Na manh seguinte, ao acordar, Annette tomou uma deciso. Encontraria Lucas e lhe diria que o amava. E, caso ele ainda quisesse algum tipo de relacionamento com ela, pediria para no constar entre os atletas que seriam comentados no livro.
Ainda na cama, Annette respirou profundamente. Ela sentia-se como se estivesse para disputar um grande ttulo: estranhamente calma, cada msculo do corpo relaxado e no estmago, a sensao que existia um imenso buraco.
	Agora s preciso saber onde encontr-lo. E eu vou encontrar voc, Lucas Tremaine, nem que tenha que procur-lo no fim do mundo.
Annette se levantou, tomou um longo banho, vestiu-se e foi tomar o caf da manh. Antes de tomar a refeio matinal, pegou o jornal do dia e, para sua surpresa, ficou sabendo que Lucas estava hospedado num hotel de Auckland. E foi inevitvel pensar no porta-retrato:
"Ser isso obra daquela linda mulher, ou tudo no passa de uma grande coincidncia?" No sou l mulher de acreditar em coincidncias, mas o fato de Lucas estar aqui na cidade me parece muito estranho."
Assim que terminou de tomar o caf da manh, ela voltou para o quarto e abriu o armrio.
	Preciso encontrar um vestido bem bonito para usar.
Depois de muito procurar entre as suas roupas, ela se sentiu completamente insatisfeita.
	Os meus vestidos so todos muito pesados, nada sensuais. Alm de tudo, esto muito velhos. E quero algo novo e bem leve para me encontrar com Lucas. E tambm quero usar um sapato bem bonito. E no vou pedir a ajuda de Jan para fazer isso. Tenho que aprender a entrar numa loja e comprar exatamente o que quero. Mas para isso vou precisar pedir dinheiro emprestado a minha me. 
Trs horas mais tarde, com um corte de cabelo que a deixava com uma aparncia mais jovem, um vestido longo esvoaante, sandlias de couro nos ps e vrias sacolas nas mos, ela saa do shopping mais famoso da cidade.
"Meu Deus, como eu gastei dinheiro! Acho que vou demorar bastante para pagar a minha me tudo que lhe devo. Em poucas horas gastei mais do que na minha vida inteirinha."
Ao entrar no carro ela disse:
 Mas no me arrependo. Mereci cada uma das coisinhas que comprei para mim. Agora, direto para o hotel!

CAPITULO IX

Antes de sair do carro, Annette abriu a bolsa L.nova que havia comprado, pegou um batom e passou nos lbios.
"Quem diria que eu, um dia, iria usar batom? Mas a gente muda e as mudanas so maravilhosas!"
Com determinao, ela saiu do carro e se dirigiu  recepo do hotel.
	Por favor, quero falar com o sr. Lucas Tremaine.
	A quem devo anunciar?  A recepcionista, que estava com a cabea abaixada, ao ergu-la, abriu um amplo sorriso.
 Annette. Annette Carruthers! Sou sua f. Cheguei a chorar quando ganhou aquela medalha. Foi emocionante. Voc me d um autgrafo?
	Mas  claro que sim.
Aps ter autografado um pedao de papel para a recepcionista, Annette aguardou que ela entrasse em con-tato com Lucas.
	Pode subir, Annette. Ele est hospedado na sute nmero dois do dcimo quarto andar.
	Obrigada.  Annette se dirigiu ao elevador. E quando j estava a caminho do dcimo quarto andar, toda a coragem que sentia at aquele momento parecia, de repente, querer abandon-la.
"Fora, moa! Fora e f! Muita f! Voc vai conseguir!", ela se dizia em pensamento.
Quando saiu do elevador, Lucas a esperava junto  porta da sute.
	Oi, Lucas.
	Oi, Annette.  Ele a fitava com muita ateno. Por favor, entre.
Annette entrou e viu que, apesar da insegurana, precisava ir em frente.
	Essa sute  muito bonita.
	, sim.  Ele indicou-lhe uma sof.  Sente-se.
Annette sentou-se, mas Lucas continuou em p.
	Mas a que devo a honra de sua visita?
	Quero... Quero falar com voc sobre o livro.
	Sei...
Depois que havia voltado de Falalsi, Annette tinha relido todos os livros escritos por Lucas.
"Meu Deus, ele  um excelente escritor. Escreve sempre com muita seriedade, sem nenhum tipo de sensacionalismo. No posso impedi-lo de escrever o que realmente quer. Eu..."
	Bem, resolvi retirar as minhas objees. E, se ainda quiser, posso ajud-lo.  Annette se assustou ao ouvir o que tinha acabado de dizer.
"O que est acontecendo comigo? Tinha vindo aqui para lhe dizer outra coisa. E, de repente..."
	No tenho direito de impedir que exera a sua profisso, Lucas. Reli os seus livros e s posso lhe dizer que o mundo precisa de pessoas srias como voc.
	No pensei que fosse to altrusta.  Existia uma certa ironia no tom de voz dele.  Mas no precisa mais se preocupar, voc est fora do meu novo livro.
	Isso, agora, no tem a menor importncia. Mas me diga: o que fez com que mudasse de ideia?
Annette o encarou e, sem nenhum tipo de hesitao, respondeu:
	O amor que sinto por voc. Eu te amo, Lucas Tremaine.
	Verdade? : Ele riu de maneira livre e, puxando-a do sof, a abraou.  E quando foi que descobriu isso?
	Acho que depois da massagem que eu lhe fiz.
	E por que no me disse nada?
	Porque estava morrendo de medo e insatisfeita com o meu comportamento.
	Pensei que estivesse com raiva do meu comportamento, isso sim.
	No  ela se apressou em afirmar.  Depois, a Jan chegou e...
	E voc teve certeza que eu tinha ido para Fala'isi sond-la por causa do livro.  Lucas a fitou, encantado. Mas fique sabendo que comecei a desej-la quando a vi no barco de Scott. No, foi antes disso. Comecei a desej-la quando a vi pela televiso nos Jogos Olmpicos. Voc mais parecia uma deusa: alta, forte e muito confiante. Nunca tinha me sentido to atrado por algum de uma maneira to intensa.
	Nem por Cara?
	Nem por ela. Clara era jovem, afetuosa e estava muito assustada. Mas eu teria sido um bom marido para ela pelo resto das nossas vidas. O pai dela era o editor de um jornal dirio. Duas semanas depois de eu ter chegado em San Rafael, ele foi assassinado pelos homens do ditador que governava aquela ilha. O irmo de Clara, nessa ocasio, j era um guerrilheiro e lutava contra o ditador. E Clara, apavorada, depois do crime, foi para o meu hotel. Ouvira os homens que tinham assassinado o pai dizer que a usariam como isca para atrair o irmo. Ela sempre tinha sido muito protegida pela famlia e no sabia o que fazer.
	Protegida assim, como eu?
Mais ou menos. A diferena  que voc sempre foi muito competente e capaz de cuidar de si mesma. S que a sua famlia ainda no entendeu isso. Clara, no entanto, no teve tempo de descobrir a prpria fora. A, achei que poderia mant-la s e salva na Inglaterra. Mas l chegando, comecei a escrever artigos denunciando o que acontecia em San Rafael. S que no tinha tomado nenhuma precauo para me proteger, nem para proteger a minha casa. Ou seja: por inexperincia, facilitei muito para os homens do ditador. E aconteceu o que aconteceu. Quando cheguei encontrei-a ainda viva entre os escombros. Clara abriu os olhos e achou que estivesse de volta a San Rafael, na companhia do pai e do irmo. E morreu logo em seguida. Tenho certeza que, se ela tivesse ficado em San Rafael, seria morta do mesmo jeito. Mas, antes, teria sido torturada.  Lucas deu um profundo suspiro.  Bem, o que me deixa hoje mais tranquilo  saber que consegui faz-la um pouco feliz.
	E voc conseguiu, Lucas. Pela fotografia que vi dela pude constatar que era uma mulher muito feliz.
	 muito bom ouvir isso.  Ele a beijou na testa.  Preciso tanto de voc, Annette. Nunca precisei tanto de uma outra pessoa como preciso de voc.
	Por que no me disse isso na ltima vez que estivemos juntos?
	Eu ia lhe dizer, mas a... Bem, a, as coisas no aconteceram como havia planejado e me senti muito inseguro. E gostaria que entendesse de uma vez por todas, Annette: jamais pensei em engan-la. E eu nunca, nunca pensei em apenas ter um caso com voc.
	E muito bom ouvir isso. E gostaria que soubesse que me relacionei sexualmente com Mark.
	Isso, para mim, no tem a menor importncia.
	Mas quero que saiba de uma outra coisa: gostava de fazer amor com Mark. E pensei que ele tambm gostasse.
	No entendi...
	Mark no gostava de fazer amor comigo.
	E como sabe disso?
	Ele me disse.
	Ele disse que no gostava de fazer amor com voc?
 Lucas estava espantado.
	Bem, na verdade eu o forcei a dizer. Apesar de tudo, Mark gostava de mim, e estava muito triste quando terminou o nosso noivado. Ele tinha muito medo de me magoar.
	Ele foi o primeiro homem com quem se relacionou sexualmente?
	Foi o primeiro e o nico.
	Ento, voc era totalmente inexperiente.
	Era, sim.
	E que tipo de informaes voc tinha a respeito de sexo?
	As informaes que trazem as revistas, os livros...
	Acho que voc tem que parar de se preocupar com isso. Muitas pessoas que se do muito bem na cama acabam se separando. A atitude dele deve t-la deixado ainda mais insegura como mulher.
	Deixou. Como deixou!
	Pois , mas saiba que voc  uma mulher incrivelmente sensual. E tenho certeza que nos daremos muito bem na cama. Bem, agora precisamos pensar no nosso casamento.
	Casamento?  Annette estava espantadssima.
	Por que o espanto?
	Voc quer se casar comigo?
	E voc ainda tem alguma dvida?
	Por que est querendo se casar comigo?
	Porque te amo desesperadamente, Annette. Te amo como nunca pensei poder amar algum na vida. E no posso nem sequer imaginar a hiptese de viver longe de voc. Um dia, tenho certeza, voc vai me amar da maneira como eu a amo.
Naquele instante, a poesia que havia encontrado no por-ta-retrato apareceu na mente de Annette. E, pela primeira vez, ela comeou a acreditar que aquele no era um simples objeto do sculo dezoito.
	Voc est chorando?  Lucas perguntou, com afeto.
	Sempre choro quando estou muito feliz. Chorei quando conquistei a medalha, estou chorando agora e tenho certeza que vou chorar quando estiver com o nosso beb nos braos.
	Posso concluir, ento, que est disposta a se casar comigo?
	Com toda certeza. Voc tem tudo o que sempre quis num homem.
	Verdade?
	Verdade verdadeira  ela brincou.
Lucas a levou para o sof e entre promessas, confidncias e carinhos, os dois continuaram conversando durante um longo tempo.
	Que horas so?  ele perguntou, de repente, e olhou para o relgio de pulso.  Me desculpe, Annette, mas tenho uma entrevista daqui a pouco.
	Nada como ser um homem importante.
	Olha quem fala!  Ele se levantou e se dirigiu para o quarto.  Me espere, no v fugir.
	Mas  claro que no vou fugir.
Annette sentia-se a mulher mais feliz do mundo. Ao olhar para o cho, viu uma papel de fax e o pegou.
	No acredito que ele tenha feito isso  ela disse baixinho, aps ler o contedo do fax.
Quando Lucas voltou, ela lhe estendeu o papel.
	Sinto muito, mas li o contedo deste fax. Quando disse que eu estava fora do livro, no me disse que tinha desistido dele.
	Essa  uma longa histria, Annette.  Ele pegou o fax e o colocou sobre uma mesinha de centro.  Entre o livro e voc, escolhi voc.
	Mas isso no  justo. O mundo precisa muito de pessoas como voc. Nosso casamento comearia sob bases falsas, se desistisse de fazer o que gosta s por minha causa. Voc tem que escrever o livro, Lucas.
	A gente vai se casar, querida. Esquea esse livro.
	Me diga qual  o significado de uma frase que li no fax.
	Qual frase?  Lucas quis saber.
Annette repetiu a frase que estava no fax:
Agora que VS entregou o ouro, voc no deveria desistir.
	Bem, depois que paguei  Victoria uma grande soma de dinheiro e lhe passei as investigaes que tinha feito, ela me contou toda a verdade. Afinal, o que eu tinha deduzido era a mais pura verdade: por medo de fazer os testes, Victoria, que vinha tomando muito esteride, resolveu desaparecer e inventou aquela histria do rapto. Ela admitiu tudo sem o menor remorso, sem ficar nada embaraada. Agora, a droga predileta dela  a herona.
	Meu Deus, que situao mais triste.
	E realmente uma situao muito triste mesmo. Estava pretendendo contar tudo a voc depois do nosso casamento. E iria lhe perguntar o que devo fazer com as informaes que obtive. Afinal, foi voc quem esteve sob suspeita esse tempo todo.
	O quanto o afetaria profissionalmente o fato de se casar comigo e deixar de colocar no livro este triste episdio?
	Annette, eu no vou mais escrever o livro.
	Isso no  justo. Nossa vida no pode comear dessa maneira. E, se tiver voc ao meu lado, vou me sentir forte o suficiente para enfrentar qualquer coisa que possam falar sobre mim. Voc no pode, no pode mesmo desistir de algo to importante.
Lucas, pensativo, sentou-se ao lado dela, tomou-lhe uma das mos e, depois de beij-la, disse:
	Eu te amo. E por te amar vou, ento, escrever o livro.
Uma semana mais tarde, Annette e Lucas se casavam. Na recepo, que estava acontecendo na imensa casa onde Annette sempre havia morado, eram muitos os convidados.
Ao ver Olvia se aproximar com o marido, Annette comeou a sorrir e comentou:
	J sei o que vai me dizer.
	Sabe mesmo?  Olvia deu um beijo no rosto da noiva.
	Mas  claro que sei. Voc vai dizer que aquela linda mulher  a responsvel pela minha felicidade.
	Imagina se vou dizer uma coisa dessa  Olvia brincou e colocou o brao em torno da cintura do marido.
	Mas sabe, acho que, no fundo, ela  responsvel por tudo isso, sim.
Olvia e Drake trocaram olhares cmplices.
	Sei exatamente o que est querendo dizer  Olvia comentou.  Aquela mulher parece saber muito bem o que est fazendo.
Lucas que havia se aproximado do grupo e ouvira o final da conversa, perguntou:
	Quem foi ela?
	No temos a menor ideia  Drake afirmou.  A pintura no est assinada, mas um especialista com quem entrei em contato tem quase certeza que sabe quem foi o artista: um mestre, como podemos observar pelo trabalho. Mas a mulher no pde ser identificada. Ficamos sabendo tambm que o artista tambm teve um longo e feliz casamento. Agora, a minha mulherzinha aqui, que  muito romntica e sentimental, acha que a moa retratada  a esposa dele.
	E aquela poesia que encontrei  muito linda.
	Poesia? Voc encontrou uma poesia?  Olvia estava muito interessada.
	Encontrou, sim  Lucas afirmou e disse um trecho da poesia.  Ela estava escondida no porta-retrato mesmo.
	Meu Deus,  a mesma poesia que a mulher do porta-retrato me recitou num sonho que tive. Agora, mais do que nunca, acho que devo comear a acreditar que foi ela quem fez com que Drake e eu ficssemos juntos.  Olvia sorriu, feliz.  Annette, por favor, mantenha o porta-retrato com voc at o dia em que sentir que deve d-lo a algum. Certo?
	Um pedido seu  uma ordem, Olvia.
Da recepo, Annette e Lucas foram para o aeroporto e de l voaram para Fala'isi. Em seguida, de iate, foram para a mesma ilha que ele pretendera lev-la depois de t-la raptado. E l, no meio do mar e da vida, se entregaram sem nenhum tipo de restrio.
Na manh seguinte,-em paz com o prprio corpo, Annette foi desfazer as malas e encontrou o porta-retrato.
	Voc, pelo jeito, j viajou muito, mocinha  ela disse para o retrato.
	Est falando comigo, querida?  Lucas perguntou.
Ele ainda estava deitado.
	No, estava falando com o mulher do porta-retrato.
	O qu?  ele perguntou espantado.
	Estava falando com a mulher do porta-retrato  ela repetiu.
	No pensei que voc fosse supersticiosa.
	E eu no sou  Annette se defendeu.
	Garanto que est pensando que essa mulher me en feitiou e o que sinto por voc  falso.
	No, no estava pensando nisso.
	No mesmo?  Lucas se levantou e a abraou.  E acho bom voc acreditar, de uma vez por todas, minha querida esposa, que eu fiquei alucinado por voc quando a vi na televiso e isso aconteceu bem antes de conhec-la pessoalmente.
	E muito bom ouvir isso.
	E quero lhe dizer mais umas coisinhas.  Ele beijou-lhe os lbios de leve e continuou:  Tudo o que eu tenho  seu. E vou am-la pelo resto da minha vida. E nada, nada ser capaz de mudar isso.
	Tenho muito medo de perd-lo, Lucas.
	Voc no vai me perder. Nunca. No vai me perder porque voc  a razo da minha vida. Quando aparecer o momento oportuno, daremos o porta-retrato para algum, combinado?
	Combinado.
	Acredita em tudo o que eu lhe falei?
	Acredito.
Annette, que ainda segurava o porta-retrato nas mos, foi coloc-lo sobre a cmoda. E, de repente, teve a sensao de que a mulher lhe sorria.

FIM
